segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA A QUARESMA DE 2017

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO
PARA A QUARESMA DE 2017

A Palavra é um dom. O outro é um dom

Amados irmãos e irmãs!
A Quaresma é um novo começo, uma estrada que leva a um destino seguro: a Páscoa de Ressurreição, a vitória de Cristo sobre a morte. E este tempo não cessa de nos dirigir um forte convite à conversão: o cristão é chamado a voltar para Deus «de todo o coração» (Jl 2, 12), não se contentando com uma vida medíocre, mas crescendo na amizade do Senhor. Jesus é o amigo fiel que nunca nos abandona, pois, mesmo quando pecamos, espera pacientemente pelo nosso regresso a Ele e, com esta espera, manifesta a sua vontade de perdão (cf. Homilia na Santa Missa, 8 de janeiro de 2016).
A Quaresma é o momento favorável para intensificarmos a vida espiritual através dos meios santos que a Igreja nos propõe: o jejum, a oração e a esmola. Na base de tudo isto, porém, está a Palavra de Deus, que somos convidados a ouvir e meditar com maior assiduidade neste tempo. Aqui queria deter-me, em particular, na parábola do homem rico e do pobre Lázaro (cf. Lc 16, 19-31). Deixemo-nos inspirar por esta página tão significativa, que nos dá a chave para compreender como temos de agir para alcançarmos a verdadeira felicidade e a vida eterna, incitando-nos a uma sincera conversão.
1. O outro é um dom
A parábola inicia com a apresentação dos dois personagens principais, mas quem aparece descrito de forma mais detalhada é o pobre: encontra-se numa condição desesperada e sem forças para se solevar, jaz à porta do rico na esperança de comer as migalhas que caem da mesa dele, tem o corpo coberto de chagas, que os cães vêm lamber (cf. vv. 20-21). Enfim, o quadro é sombrio, com o homem degradado e humilhado.
A cena revela-se ainda mais dramática, quando se considera que o pobre se chama Lázaro, um nome muito promissor pois significa, literalmente, «Deus ajuda». Não se trata duma pessoa anónima; antes, tem traços muito concretos e aparece como um indivíduo a quem podemos atribuir uma história pessoal. Enquanto Lázaro é como que invisível para o rico, a nossos olhos aparece como um ser conhecido e quase de família, torna-se um rosto; e, como tal, é um dom, uma riqueza inestimável, um ser querido, amado, recordado por Deus, apesar da sua condição concreta ser a duma escória humana (cf. Homilia na Santa Missa, 8 de janeiro de 2016).
Lázaro ensina-nos que o outro é um dom. A justa relação com as pessoas consiste em reconhecer, com gratidão, o seu valor. O próprio pobre à porta do rico não é um empecilho fastidioso, mas um apelo a converter-se e mudar de vida. O primeiro convite que nos faz esta parábola é o de abrir a porta do nosso coração ao outro, porque cada pessoa é um dom, seja ela o nosso vizinho ou o pobre desconhecido. A Quaresma é um tempo propício para abrir a porta a cada necessitado e nele reconhecer o rosto de Cristo. Cada um de nós encontra-o no próprio caminho. Cada vida que se cruza connosco é um dom e merece aceitação, respeito, amor. A Palavra de Deus ajuda-nos a abrir os olhos para acolher a vida e amá-la, sobretudo quando é frágil. Mas, para se poder fazer isto, é necessário tomar a sério também aquilo que o Evangelho nos revela a propósito do homem rico.
2. O pecado cega-nos
A parábola põe em evidência, sem piedade, as contradições em que vive o rico (cf. v. 19). Este personagem, ao contrário do pobre Lázaro, não tem um nome, é qualificado apenas como «rico». A sua opulência manifesta-se nas roupas, de um luxo exagerado, que usa. De facto, a púrpura era muito apreciada, mais do que a prata e o ouro, e por isso se reservava para os deuses (cf. Jr 10, 9) e os reis (cf. Jz 8, 26). O linho fino era um linho especial que ajudava a conferir à posição da pessoa um caráter quase sagrado. Assim, a riqueza deste homem é excessiva, inclusive porque exibida habitualmente: «Fazia todos os dias esplêndidos banquetes» (v. 19). Entrevê-se nele, dramaticamente, a corrupção do pecado, que se realiza em três momentos sucessivos: o amor ao dinheiro, a vaidade e a soberba (cf. Homilia na Santa Missa, 20 de setembro de 2013).
O apóstolo Paulo diz que «a raiz de todos os males é a ganância do dinheiro» (1 Tm 6, 10). Esta é o motivo principal da corrupção e uma fonte de invejas, contendas e suspeitas. O dinheiro pode chegar a dominar-nos até ao ponto de se tornar um ídolo tirânico (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 55). Em vez de instrumento ao nosso dispor para fazer o bem e exercer a solidariedade com os outros, o dinheiro pode-nos subjugar, a nós e ao mundo inteiro, numa lógica egoísta que não deixa espaço ao amor e dificulta a paz.
Depois, a parábola mostra-nos que a ganância do rico fá-lo vaidoso. A sua personalidade vive de aparências, fazendo ver aos outros aquilo que se pode permitir. Mas a aparência serve de máscara para o seu vazio interior. A sua vida está prisioneira da exterioridade, da dimensão mais superficial e efémera da existência (cf. ibid., 62).
O degrau mais baixo desta deterioração moral é a soberba. O homem veste-se como se fosse um rei, simula a posição dum deus, esquecendo-se que é um simples mortal. Para o homem corrompido pelo amor das riquezas, nada mais existe além do próprio eu e, por isso, as pessoas que o rodeiam não caiem sob a alçada do seu olhar. Assim o fruto do apego ao dinheiro é uma espécie de cegueira: o rico não vê o pobre esfomeado, chagado e prostrado na sua humilhação.
Olhando para esta figura, compreende-se por que motivo o Evangelho é tão claro ao condenar o amor ao dinheiro: «Ninguém pode servir a dois senhores: ou não gostará de um deles e estimará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro» (Mt 6, 24).
3. A Palavra é um dom
O Evangelho do homem rico e do pobre Lázaro ajuda a prepararmo-nos bem para a Páscoa que se aproxima. A liturgia de Quarta-Feira de Cinzas convida-nos a viver uma experiência semelhante à que faz de forma tão dramática o rico. Quando impõe as cinzas sobre a cabeça, o sacerdote repete estas palavras: «Lembra-te, homem, que és pó da terra e à terra hás de voltar». De facto, tanto o rico como o pobre morrem, e a parte principal da parábola desenrola-se no Além. Dum momento para o outro, os dois personagens descobrem que nós «nada trouxemos ao mundo e nada podemos levar dele» (1 Tm 6, 7).
Também o nosso olhar se abre para o Além, onde o rico tece um longo diálogo com Abraão, a quem trata por «pai» (Lc 16, 24.27), dando mostras de fazer parte do povo de Deus. Este detalhe torna ainda mais contraditória a sua vida, porque até agora nada se disse da sua relação com Deus. Com efeito, na sua vida, não havia lugar para Deus, sendo ele mesmo o seu único deus.
Só no meio dos tormentos do Além é que o rico reconhece Lázaro e queria que o pobre aliviasse os seus sofrimentos com um pouco de água. Os gestos solicitados a Lázaro são semelhantes aos que o rico poderia ter feito, mas nunca fez. Abraão, porém, explica-lhe: «Recebeste os teus bens na vida, enquanto Lázaro recebeu somente males. Agora, ele é consolado, enquanto tu és atormentado» (v. 25). No Além, restabelece-se uma certa equidade, e os males da vida são contrabalançados pelo bem.
Mas a parábola continua, apresentando uma mensagem para todos os cristãos. De facto o rico, que ainda tem irmãos vivos, pede a Abraão que mande Lázaro avisá-los; mas Abraão respondeu: «Têm Moisés e os Profetas; que os oiçam» (v. 29). E, à sucessiva objeção do rico, acrescenta: «Se não dão ouvidos a Moisés e aos Profetas, tão-pouco se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dentre os mortos» (v. 31).
Deste modo se patenteia o verdadeiro problema do rico: a raiz dos seus males é não dar ouvidos à Palavra de Deus; isto levou-o a deixar de amar a Deus e, consequentemente, a desprezar o próximo. A Palavra de Deus é uma força viva, capaz de suscitar a conversão no coração dos homens e orientar de novo a pessoa para Deus. Fechar o coração ao dom de Deus que fala, tem como consequência fechar o coração ao dom do irmão.
Amados irmãos e irmãs, a Quaresma é o tempo favorável para nos renovarmos, encontrando Cristo vivo na sua Palavra, nos Sacramentos e no próximo. O Senhor – que, nos quarenta dias passados no deserto, venceu as ciladas do Tentador – indica-nos o caminho a seguir. Que o Espírito Santo nos guie na realização dum verdadeiro caminho de conversão, para redescobrirmos o dom da Palavra de Deus, sermos purificados do pecado que nos cega e servirmos Cristo presente nos irmãos necessitados. Encorajo todos os fiéis a expressar esta renovação espiritual, inclusive participando nas Campanhas de Quaresma que muitos organismos eclesiais, em várias partes do mundo, promovem para fazer crescer a cultura do encontro na única família humana. Rezemos uns pelos outros para que, participando na vitória de Cristo, saibamos abrir as nossas portas ao frágil e ao pobre. Então poderemos viver e testemunhar em plenitude a alegria da Páscoa.
Vaticano, 18 de outubro – Festa do Evangelista São Lucas – de 2016.

FRANCISCO

domingo, 26 de fevereiro de 2017

REFLEXÃO DO PAPA FRANCISCO SOBRE O EVANGELHO DO VIII DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO A)


Mt 6, 24-34 Diante das tantas preocupações que tiram a nossa serenidade e equilíbrio, devemos confiar-nos a Deus. “Ele não resolve magicamente os problemas, mas permite enfrentá-los com o espírito correto”. Palavras do Papa Francisco na alocução que precedeu a Oração mariana do Angelus,  inspirada na leitura do Evangelho de Mateus - proposta pela Liturgia do dia - onde somos chamados a fazer uma escolha por Deus e pelo seu Reino, uma escolha “que nem sempre mostra imediatamente seus frutos” e que é feita na esperança.
Deus cuida dos seres da criação, “provê de alimento a todos os animais, preocupa-se pelos lírios e pela erva do campo; o seu olhar benéfico e solícito vigia quotidianamente a nossa vida”.
O Papa recorda que “a angústia” causada pelas preocupações “é muitas vezes inútil”, pois “não consegue mudar o curso dos acontecimentos”. Neste sentido, a insistente exortação de Jesus “a não nos preocupar-nos com o amanhã”, “existe um Pai amoroso que não se esquece nunca de seus filhos. Entregar-se a Ele não resolve magicamente os problemas, mas permite enfrentá-los com o espírito correto, corajosamente”: “Deus não é um ser distante e anônimo: é o nosso refúgio, a fonte de nossa serenidade e de nossa paz. É a rocha da nossa salvação, a quem podemos agarrar-nos na certeza de não cair. Quem se agarra a Deus não cai, quem se agarra a Deus, não cai nunca! É a nossa defesa do mal, sempre à espreita. Deus é para nós o grande amigo, o aliado, o pai, mas nem sempre nos damos conta disto”.
Não nos damos conta disto, e “preferimos apoiar-nos em bens imediatos que podemos tocar, bens contingentes – constata Francisco -  esquecendo, e às vezes rejeitando, o bem supremo, isto é, o amor paterno de Deus”: “Senti-lo Pai, nesta época de orfandade é tão importante! Neste mundo órfão, senti-lo Pai. Nós nos afastamos do amor de Deus quando vamos em busca obsessiva dos bens terrenos e das riquezas, manifestando assim um amor exagerado por estas realidades”.
“Jesus – recordou o Santo Padre – diz-nos que esta busca incansável é ilusória e motivo de infelicidade. E dá aos seus discípulos uma regra de vida fundamental: “Buscai, pelo contrário, o reino de Deus””: “Trata-se de realizar o projeto que Jesus anunciou no Sermão da Montanha, confiando em Deus que não desilude - tantos amigos ou tantos que acreditávamos amigos, nos desiludiram; Deus nunca desilude - agir como administradores fiéis dos bens que Ele nos deu, também os terrenos, mas sem “exagerar”, como se tudo, também a nossa salvação, dependesse somente de nós”.
“Esta atitude evangélica requer uma escolha clara, que a passagem de hoje indica com precisão: “Não podeis servir a Deus e à riqueza”. Ou o Senhor, ou os ídolos fascinantes, mas ilusórios”: “Esta escolha que somos chamados a fazer, repercute-se depois em tantos dos nossos atos, programas e compromissos. É uma escolha que deve ser feita de modo claro e renovada continuamente, porque as tentações de reduzir tudo a dinheiro, prazer e poder, estão sempre presentes. Existem tantas tentações neste sentido”.
“Enquanto honrar estes ídolos leva a resultados tangíveis, mesmo se fugazes, fazer a escolha por Deus e pelo seu Reino nem sempre mostra imediatamente os seus frutos”: “É uma decisão que se toma na esperança e que deixa a Deus a plena realização. A esperança cristã é voltada ao cumprimento futuro da promessa de Deus e não se rende diante de alguma dificuldade, porque é fundada na fidelidade de Deus, que nunca falta. É fiel, é um pai fiel, é um amigo fiel, é um aliado fiel”.
A confiança no amor e na bondade do Pai celeste – concluiu o Papa – “é o pressuposto para superar os tormentos e as adversidades da vida, e também as perseguições, como nos mostra o testemunho de tantos nossos irmãos e irmãs”.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

REFLEXÃO DO PAPA FRANCISCO SOBRE O EVANGELHO DO VII DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO A)

Mt 5, 38-48 O Papa Francisco fez, hoje, como todos os domingos ao meio dia, a sua breve reflexão sobre o evangelho do dia. O de hoje, disse, oferece uma daquelas páginas que melhor exprimem a “revolução” cristã, ou seja o da verdadeira justiça e não a de “olho por olho, dente por dente”. Perante a lei de talião que era a de pagar com a mesma moeda, ou seja a morte ao assassino, a amputação a quem tinha ferido alguém, etc., Jesus ensina a pagar o mal com o bem. É só quebrando a cadeia do mal que se pode mudar realmente as coisas. A represália não leva nunca à resolução do conflito.
Para Jesus – disse o Papa – a recusa da violência pode mesmo comportar a renuncia ao legitimo direito e a aceitar sacrifícios. No entanto esta renuncia não quer dizer que “as exigências da justiça sejam ignoradas ou contraditas; antes pelo contrário, o amor cristão que se manifesta de forma especial na misericórdia, representa uma realização superior da justiça”.
“O que Jesus nos quer ensinar é a “clara distinção que devemos fazer entre a justiça e a vingança”. E recordou que a justiça é consentida, mas a vingança é proibida.
“É nosso dever  praticar a justiça. É-nos, pelo contrário, proibido vingar ou fomentar, de forma for, a vingança, enquanto expressão do ódio e da violência”
O que Jesus quer – prosseguiu o Papa – não é propor uma nova ordem civil, mas sim o mandamento do amor em relação ao próximo que compreende também o amor pelo inimigo, o que não significa aprovação do mal feito pelo inimigo, mas pôr-se num plano superior, de magnanimidade, semelhante ao do Pai celeste que “faz brilhar o seu sol sobre os maus e sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos”. E o Papa recordou estas palavras de Jesus, que não são, todavia, fáceis de pôr em prática, reconheceu: “Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem” – dizia Jesus”.
Mas não devemos esquecer que também o inimigo é “uma pessoa humana” criada à imagem de Deus, só que ofuscada por uma conduta indigna”. E quando falamos de inimigos, não devemos pensar noutras pessoas, longínquas, não. Devemos pensar  também em nós mesmos, no facto que podemos também nós entrar em conflito com o nosso próximo e por vezes mesmo com os nossos familiares: “Quantas inimizades nas famílias, quantas?! Pensemos nisso. Os inimigos são também aqueles que falam mal de nós, nos caluniam e nos fazem mal. E não é fácil digerir isso! A todos eles somos chamados a responder com o bem, que tem também ele as suas estratégias, inspiradas no amor”.
E o Papa concluiu pedindo a Nossa Senhora para que nos ajude a seguir Jesus nesta exigente caminhada que exalta verdadeiramente a dignidade humana e nos faz viver como filhos do nosso Pai que está nos Céus. Que nos ajude a praticar a paciência, o diálogo, o perdão e a sermos artesãos de comunhão e de fraternidade na nossa vida quotidiana, sobretudo nas nossas famílias. 

domingo, 12 de fevereiro de 2017

REFLEXÃO DO PAPA FRANCISCO SOBRE O EVANGELHO DO VI DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO A)

Mt 5,17-37 Antes da oração mariana do Angelus, o Papa Francisco dirigindo-se aos milhares de fiéis presentes na Praça de S. Pedro falou da liturgia deste dia que nos apresenta uma outra página do Sermão da Montanha em que Jesus quer ajudar os seus ouvintes a fazer uma releitura da lei de Moisés.
Aquilo que tinha sido dito na antiga aliança não era tudo, Jesus veio para completar e para promulgar de forma definitiva a lei de Deus, e Ele faz tudo isso através da sua pregação e, mais ainda, oferecendo-se na cruz, sublinhou Francisco, que acrescentou:
“Assim, Jesus nos ensina como fazer plenamente a vontade de Deus, com uma "justiça superior" em relação à justiça dos escribas e fariseus, uma justiça animada pelo amor, pela caridade, a misericórdia e, portanto, capaz de perceber a substância dos mandamentos, evitando o risco de formalismo”.
O Papa falou, em particular, dos três aspectos que Jesus analisa no Evangelho de hoje: o homicídio, o adultério e o juramento. Sobre o mandamento "não matarás", observou o Papa, Jesus afirma que é violado não apenas pelo homicídio efectivo, mas também por aqueles comportamentos que ofendem a dignidade da pessoa humana, incluindo as palavras insultuosas. É verdade que os insultos não têm a mesma gravidade e culpabilidade do homicídio, disse o Papa, mas colocam-se na mesma linha, porque constituem a sua premissa e revelam a mesma maldade. E por isso Jesus nos convida a considerar prejudiciais todas as ofensas, porque motivadas pela intenção de fazer mal ao próximo.
Em relação à lei matrimonial, prosseguiu Francisco, Jesus vai até à raiz do adultério que na antiga aliança era considerado uma violação do direito de propriedade do homem sobre a mulher:
“Do mesmo modo que se chega ao homicídio através dos insultos e ofensas, também se chega ao adultério através de intenções de possesso em relação a uma mulher que não seja a própria esposa. O adultério, tal como o furto, a corrupção e todos os outros pecados, são primeiramente concebidos dentro de nós e, uma vez realizada no coração a escolha errada, são implementados no comportamento concreto”.
E por último, sobre o juramento, Jesus diz aos seus discípulos para não jurar, pois o juramento é sinal de insegurança e duplicidade com que se estabelecem as relações humanas, e com o juramento se instrumentaliza a autoridade de Deus para dar garantia às nossas questões humanas – disse Francisco:
“Pelo contrário, somos chamados a construir entre nós, nas nossas famílias e nas nossas comunidades um clima de clareza e confiança recíproca, de modo a podermos ser considerados sinceros, sem recorrermos a intervenções superiores para sermos acreditados. A desconfiança e a suspeita recíprocas ameaçam sempre a serenidade”.
Que a Virgem Maria, mulher da dócil escuta e da alegre obediência, nos ajude a aproximar-nos cada vez mais do Evangelho, para sermos  cristãos não "de fachada", mas de substância! E isto é possível com a graça do Espírito Santo, que nos permite fazer tudo com amor, e assim cumprirmos plenamente a vontade de Deus.

Processo de Beatificação da Irmã Lúcia

Processo de Beatificação da Irmã Lúcia

A sessão de clausura do inquérito diocesano do processo de beatificação e canonização da Irmã Lúcia vai realizar-se dia 13 de fevereiro, no Carmelo de Santa Teresa de Coimbra.
A cerimónia começa às 17:00 e uma hora depois celebra-se uma missa de ação de graças.
O referido Inquérito Diocesano reúne todos os escritos da Irmã Lúcia, os depoimentos das
testemunhas ouvidas acerca da sua fama de santidade e das suas virtudes heróicas.
Após a Sessão de Clausura, todo o material recolhido será entregue na Congregação das Causas dos Santos, em Roma, que dará o adequado seguimento, de acordo com as normas estabelecidas pela Igreja.
“Obviamente que estamos todos muito ansiosos pela sua beatificação, mas eu penso que a Irmã Lúcia merece um estudo muito aprofundado e rigoroso, não só para a questão histórica, que é muito importante, mas concomitantemente, para a sua dimensão espiritual.
Creio que prestamos um melhor serviço à própria Lúcia, à sua santidade e características, se estudarmos bem a documentação que existe”, sustenta a irmã Ângela Coelho, que em setembro de 2014 foi nomeada vice-postuladora da causa de canonização da Irmã Lúcia pelo Postulador Geral dos Carmelitas Descalços, o padre Romano Gambalunga.

Canonização dos Pastorinhos Jacinta e Francisco

 Canonização dos Pastorinhos Jacinta e Francisco

Milagre provado, canonização avança


 

O milagres necessário para a canonização dos Pastorinhos de Fátima, os Beatos Francisco e Jacinta Marto, teve um passo decisivo, com a aprovação do milagre necessário para que tal possa avançar.
A notícia foi dada em 5 de fevereiro, por Monsenhor Agostinho Borges, Reitor do Instituto Português de S. António em Roma, na Igreja de S. António dos Portugueses, no período final da Eucaristia, e onde se adiantou que o caso teria sido o de uma criança brasileira, sem outros pormenores.
A Rádio Renascença, por seu lado, apurou em Roma que é apenas a aprovação da Comissão Científica aquela que se deu agora, faltando ainda a aprovação da Comissão teológica e do Consistório dos Cardeais.
Mas é de facto a fase agora ultrapassada a decisiva: é esta Comissão Científica que dá como provada a inexplicabilidade, em termos científicos, das curas que acontecem por intercessão daqueles que irão depois ser canonizados.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA O XXV DIA MUNDIAL DO DOENTE 2017

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO 
PARA O XXV DIA MUNDIAL DO DOENTE 
(11 DE FEVEREIRO DE 2017) 

«Admiração por quanto Deus realiza: 
“o Todo-Poderoso fez em mim maravilhas” (Lc 1, 49)»

Queridos irmãos e irmãs, 
No próximo dia 11 de fevereiro, celebrar-se-á em toda a Igreja, e de forma particular em Lourdes, o XXV Dia Mundial do Doente, sob o tema: «Admiração por quanto Deus realiza: “o Todo-Poderoso fez em mim maravilhas” (Lc 1,49)». Instituído pelo meu predecessor São João Paulo II em 1992 e celebrado a primeira vez precisamente em Lourdes no dia 11 de fevereiro de 1993, tal Jornada dá ocasião para se prestar especial atenção à condição dos doentes e, mais em geral, a todos os que sofrem; ao mesmo tempo convida quem se entrega em seu favor (familiares, profissionais de saúde e voluntários) a dar graças pela vocação recebida do Senhor para acompanhar os irmãos doentes. Além disso, esta recorrência renova, na Igreja, o vigor espiritual para desempenhar sempre da melhor forma a parte fundamental da sua missão que engloba o serviço aos últimos, aos enfermos, aos excluídos e aos marginalizados (cf. JOÃO PAULO II, Motu proprio Dolentium hominum, 11 de fevereiro de 1985, 1). Com certeza os momentos de oração, as celebrações da Eucaristia e da Unção dos Enfermos, os testemunhos de doentes e os estudos de 2 bioética e de teologia pastoral que se realizarão em Lourdes, naqueles dias, prestarão uma nova e importante contribuição para tal serviço. Sentindo-me desde agora presente espiritualmente na Gruta de Massabiel, diante da imagem da Virgem Imaculada, em quem o Todo-Poderoso fez maravilhas em prol da redenção da humanidade, desejo manifestar a minha proximidade a todos vós, irmãos e irmãs que viveis a experiência do sofrimento, e às vossas famílias, bem como o meu apreço a quantos, nas mais variadas tarefas de todas as estruturas de saúde espalhadas pelo mundo, com competência, responsabilidade e dedicação se ocupam dos cuidados e do bem-estar diário de todos vós. Desejo encorajar-vos a todos – doentes, médicos, enfermeiros, familiares, voluntários – a olhar Maria, Saúde dos Enfermos, como a garante da ternura de Deus por todo o ser humano e o modelo de abandono à Sua vontade; e encorajar-vos também a encontrar sempre na fé, alimentada pela Palavra e os Sacramentos, a força para amar a Deus e aos irmãos mesmo na experiência da doença. Como Santa Bernadette, estamos sob o olhar de Maria. A jovem de Lourdes conta que a Virgem, por ela designada “a Bela Senhora”, a fixava como se olha para uma pessoa. Estas palavras simples descrevem a plenitude dum relacionamento. Bernadette, pobre, analfabeta e doente, sente-se olhada por Maria como pessoa. A Bela Senhora fala-lhe com grande respeito, sem lastimar a sua sorte. Isto lembra-nos que cada doente é e permanece sempre um ser humano, e deve ser tratado como tal. Os doentes, tal como as pessoas com deficiências, mesmo muito graves, têm a sua dignidade inalienável e a sua missão própria na vida, não se tornando nunca meros objetos; ainda que às vezes pareçam de todo passivos, nunca o são. Bernardette, depois de estar na Gruta, graças à oração, transforma a sua fragilidade em apoio para os outros; graças ao amor, torna-se capaz de enriquecer o próximo e sobretudo oferece a sua vida pela salvação da humanidade. O facto de a Bela Senhora lhe pedir para rezar pelos pecadores lembra-nos que os doentes, os que sofrem não têm apenas o desejo de se curar, mas também o de viver cristãmente a sua existência, chegando a oferecê-la como autênticos discípulos missionários de Cristo. 3 A Bernadette, Maria dá a vocação de servir os doentes e chama-a para ser Irmã da Caridade, uma missão que ela traduz numa medida tão elevada que se torna modelo que todo o profissional de saúde pode tomar como referência. Peçamos, por isso, à Imaculada Conceição a graça de saber sempre relacionar-nos com o doente como uma pessoa que certamente precisa de ajuda – e, por vezes, até para as coisas mais elementares – mas também é portadora do seu próprio dom que deve partilhar com os outros. O olhar de Maria, Consoladora dos aflitos, ilumina o rosto da Igreja no seu compromisso diário a favor dos necessitados e dos doentes. Os preciosos frutos desta solicitude da Igreja pelo mundo dos atribulados e doentes são motivo de agradecimento ao Senhor Jesus, que Se fez solidário connosco, obedecendo à vontade do Pai até à morte na cruz, para que a humanidade fosse redimida. A solidariedade de Cristo, Filho de Deus nascido de Maria, é a expressão da omnipotência misericordiosa de Deus que se manifesta na nossa vida – sobretudo quando é frágil, está ferida, humilhada, marginalizada, atribulada – infundindo nela a força da esperança que nos faz erguer e nos sustenta. Uma riqueza tão grande de humanidade e de fé não deve ficar perdida. Há-de ajudar-nos a enfrentar as nossas fraquezas humanas e, ao mesmo tempo, os desafios presentes no campo da saúde e em âmbito tecnológico. Por ocasião do Dia Mundial do Doente, podemos encontrar novo impulso a fim de contribuir para a difusão duma cultura respeitadora da vida, da saúde e do ambiente; encontrar um renovado impulso para lutar pelo respeito da integridade e dignidade das pessoas, inclusive mediante uma abordagem correta das questões bioéticas, a tutela dos mais fracos e o cuidado do ambiente. Por ocasião do XXV Dia Mundial do Doente, reitero a minha proximidade feita de oração e encorajamento aos médicos, enfermeiros, voluntários e a todos os homens e mulheres consagrados comprometidos no serviço dos doentes e necessitados; às instituições eclesiais e civis que trabalham nesta área; e às famílias que cuidam amorosamente dos seus doentes. A todos, desejo que possam ser sempre 4 sinais jubilosos da presença e do amor de Deus, imitando o testemunho luminoso de tantos amigos e amigas de Deus, de entre os quais recordo São João de Deus e São Camilo de Lélis, Padroeiros dos hospitais e dos profissionais de saúde, e Santa Teresa de Calcutá, missionária da ternura de Deus. Irmãs e irmãos todos – doentes, profissionais de saúde e voluntários –, elevemos juntos a nossa oração a Maria, para que a sua materna intercessão sustente e acompanhe a nossa fé e nos obtenha de Cristo seu Filho a esperança no caminho da cura e da saúde, o sentido da fraternidade e da responsabilidade, o compromisso pelo desenvolvimento humano integral e a alegria da gratidão sempre que Ele nos maravilha com a sua fidelidade e a sua misericórdia:
Ó Maria, nossa Mãe, que, em Cristo, acolheis a cada um de nós como filho, sustentai a expectativa confiante do nosso coração, socorrei-nos nas nossas enfermidades e sofrimentos, guiai-nos para Cristo, vosso filho e nosso irmão, e ajudai a confiarmo-nos ao Pai que faz maravilhas.
A todos vós asseguro a minha recordação constante na oração e concedo, de coração, a Bênção Apostólica.

Vaticano, 8 de dezembro de 2016, Festa da Imaculada Conceição

                                                                                     Francisco

domingo, 5 de fevereiro de 2017

DIA DIOCESANO DOS CATEQUISTAS

No Domingo 5 de Fevereiro no Auditório da Anunciada em Setúbal realizou-se com a participação de muitos catequistas de toda a Diocese o DIA DIOCESANO DO CATEQUISTAS , com o seguinte TEMA: «Eu sou para o meu amado e o meu amado é para mim» (Ct 6,3)

HORÁRIO:
9h30-Acolhimento, oração da manhã e apresentações por vigararia sobre a Mensagem de Fátima
13h00-Almoço partilhado
14h15-Mesa redonda sobre o Sacramento do Matrimónio
16h15-Eucaristia




Durante a Eucaristia o Sr. Bispo D. José Ornelas de Carvalho dirigiu várias palavras aos catequistas. Disse ele: "O que queremos semear no coração das nossas crianças é que o Senhor nos quer bem". Elogiou o serviço que os catequistas prestam à Igreja procurando "levar a luz de Jesus para tornar este mundo mais fraterno e mais justo" e agradeceu também, a todos, o tempo que oferecem ajudando a "sonhar um sonho de Deus" de um mundo melhor.


No final da Eucaristia os catequistas com 25 ou mais anos de Missão na Catequese receberam um diploma.


REFLEXÃO DO PAPA FRANCISCO SOBRE O V DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO A)

Mt 5, 13-16 Na oração do Angelus na Praça S. Pedro (05/02), o Papa falou aos fiéis das metáforas do sal e da luz propostas pelo Evangelho de S. Mateus neste V Domingo do Tempo Comum. “As palavras de Jesus são endereçadas aos discípulos de todos os tempos, portanto também a nós”, comentou o Santo Padre. Ele nos convida a ser um reflexo da sua luz, através do testemunho das boas obras. De fato, é sobretudo o nosso comportamento que – no bem e no mal – deixa um sinal nos outros.
A luz da fé não é nossa propriedade, mas somos chamados a fazê-la resplandecer no mundo mediante as boas obras, não as palavras. “E quanta necessidade o mundo tem da luz do Evangelho que transforma, cura e garante a salvação a quem o acolhe!”, afirmou o Papa.
Já o sal é um elemento que, enquanto dá sabor, preserva o alimento da alteração e da deterioração – “na época de Jesus não havia frigoríficos!”, brincou Francisco.
Portanto, a missão dos cristãos na sociedade é a dar “sabor” à vida com a fé e o amor que Cristo nos doou e, ao mesmo tempo, "manter distantes os germes poluidores do egoísmo, da inveja, da maledicência e assim por diante. Esses germes corrompem o tecido das nossas comunidades, que devem, ao invés, brilhar como locais de acolhimento, de solidariedade e de reconciliação".
Para realizar esta missão, acrescentou, "é preciso que nós, primeiro sejamos libertados da degeneração corruptora dos influências mundanas, contrárias  a Cristo e ao Evangelho; e esta purificação jamais acaba, deve ser feita continuamente. Deve ser feita todos os dias!".
O Papa concluiu: “Cada um de nós é chamado a ser luz e sal no próprio ambiente de vida cotidiana. Que a nossa Mãe nos ajude a deixar-nos sempre purificar e iluminar pelo Senhor, para nos tornar ‘sal da terra’ e ‘luz do mundo’" (from Vatican Radio)

domingo, 29 de janeiro de 2017

REFLEXÃO DO PAPA FRANCISCO SOBRE O EVANGELHO DO IV DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO A)

Mt 5,1-12 Quanto mais tenho, mais quero: isso mata a alma. E o homem ou a mulher que tem essa atitude não é feliz e não alcançará a felicidade: disse o Papa Francisco no Angelus deste domingo, ao meio-dia, na alocução que precedeu a oração mariana.
Francisco partiu das Bem-aventuranças, “carta magna” do Novo Testamento, que caracterizam a liturgia deste IV Domingo do Tempo Comum. No sermão da montanha “Jesus manifesta a vontade de Deus de conduzir os homens à felicidade”, destacou.
Nesta sua pregação Jesus segue um caminho particular: começa com o termo “bem-aventurados”, ou seja, “felizes”; prossegue com a indicação da condição para ser tal; e conclui fazendo uma promessa, explicou o Pontífice.
Francisco acrescentou que o motivo da bem-aventurança não está na condição de “pobres em espírito”, “aflitos”, “famintos de justiça”, “perseguidos”, mas na promessa sucessiva, a ser acolhida com fé como dom de Deus. “Parte-se da condição de dificuldade para abrir-se ao dom de Deus e aceder ao mundo novo, o ‘reino’ anunciado por Jesus.”
Não é um mecanismo automático, disse o Papa. “Não podem ser bem-aventurados se não se converteram”, se não se tornaram “capazes de apreciar e viver os dons de Deus”.
Francisco deteve-se particularmente na primeira bem-aventurança: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus” (Mt 5,4), para em seguida explicitar quem são estes: “O pobre em espírito é aquele que assumiu os sentimentos e a atitude daqueles pobres que em sua condição não se rebelam, mas sabem ser humildes, dóceis, disponíveis à graça de Deus.”
A felicidade dos pobres – dos pobres em espírito – tem uma dúplice dimensão: em relação aos bens e em relação a Deus, explicou o Santo Padre, acrescentando: “Em relação aos bens, aos bens materiais, esta pobreza em espírito é sobriedade: não necessariamente renúncia, mas capacidade de experimentar o essencial, de partilha; capacidade de renovar todos os dias a admiração pela bondade das coisas, sem sucumbir na opacidade do consumo voraz."
“Quanto mais tenho, mais quero; mais tenho, mais quero: esse é o consumo voraz. E isso mata a alma. E o homem ou a mulher que faz isso, que tem essa atitude ‘mais tenho, mais quero’, não é feliz e não alcançará a felicidade.”
Em relação a Deus, afirmou, “é louvor e reconhecimento que o mundo é bênção e que na sua origem está o amor criador do Pai. Mas é também abertura a Ele, docilidade: “é Ele, o Senhor, é Ele o Grande, não sou eu que sou grande porque tenho muitas coisas! É Ele: Ele que quis o mundo para todos os homens e o quis para que os homens fossem felizes”, acrescentou.
O pobre em espírito é o cristão que não deposita sua confiança em si mesmo, nas riquezas materiais, não é obstinado nas próprias opiniões”, disse ainda o Papa fazendo em seguida uma observação pertinente à convivência nas comunidades cristãs: “Se em nossas comunidades existissem mais pobres em espírito, haveria menos divisões, contrastes e polêmicas. A humildade, como a caridade, é uma virtude essencial para a convivência nas comunidades cristãs. Os pobres, nesse sentido evangélico, se mostram como aqueles que mantêm firme a meta do Reino dos céus, fazendo entrever que este é antecipado de forma germinal na comunidade fraterna, que privilegia a partilha à posse.”

domingo, 22 de janeiro de 2017

Entrevista ao padre José Maria Brito sobre o filme «Silêncio»

O romance de Shusaku Endo chegou às mãos de Martin Scorsese no final dos anos 80 e tornou-se imediatamente um objectivo do realizador transformá-lo em filme. Quase 30 anos depois, chega às salas a complexa história de dois jesuítas portugueses que, no século XVII, testemunham a perseguição dos cristãos no Japão. “Silêncio” estreou esta quinta-feira nas salas portuguesas. Fica aqui a entrevista, do programa Ecclesia, ao Pe José Maria Brito - Director do Gabinete de Comunicação da Companhia de Jesus em Portugal - sobre este filme.


REFLEXÃO DO PAPA FRANCISCO SOBRE O EVANGELHO DO III DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO A)


Mt 4,12-23 Hoje, na sua reflexão antes da oração do ângelus da janela do Palácio Apostólico, o Papa Francisco falou da passagem do Evangelho que narra o início da pregação de Jesus na Galileia. Jesus deixa a aldeia montanhosa de Nazaré e estabelece-se em Cafarnaum, importante centro urbano nas margens do Lago, habitado essencialmente por pagãos e ponto de encruzilhada entre o Mediterrâneo e a Mesopotâmia. A “Galileia dos gentios” como era chamada.
Vista de Jerusalém a Galileia era considerada uma periferia, religiosamente impura. Dela não se esperavam grandes coisas para a história da salvação. Mas paradoxalmente, precisamente dali, da periferia, veio a luz de Cristo.
O Papa continuou, dizendo que a mensagem de Jesus anuncia o Reino de Deus que não comporta a instauração de um novo poder político, mas a concretização da aliança entre Deus e o seu povo que dará inicio a uma era de paz e justiça. Uma aliança que requer a conversão de cada um transformando o próprio modo de pensar e de viver -  a transformação do pensamento e dos costumes - insistiu Francisco, dizendo que a diferença entre Jesus e o profeta João Baptista  - que nos foi apresentado nos domingos anteriores - está no estilo e o no método.
Jesus opta por ser profeta itinerante. Não fica à espera das pessoas, mas vai ao seu encontro. As suas primeiras saídas missionárias  dão-se  ao longo das margens do lago da Galileia, em contacto com a multidão, de modo particular os pescadores”.
Ali, Jesus proclama a vinda do Reino de Deus e procura companheiros para a sua missão de salvação. Ali encontra dois pares de irmãos: Simão e André, Tiago e João. Convida-os a segui-lo, pois que “os fará pescadores de homens”
A chamada – sublinhou Francisco - chega enquanto estão em plena actividade quotidiana, porque “o Senhor se revela a nós não de forma extraordinária ou estrondosa, mas na quotidianidade da nossa vida”.
É ali que devemos encontrar o Senhor, dialogar com Ele na nossa quotidianidade e mudar a nossa vida – acrescentou,  fazendo notar que a resposta dos quatro pescadores foi imediata e sem hesitação: abandonaram as redes e seguiram Jesus.  
Assim, nas margens do lago, numa terra impensável, nasceu a primeira comunidade de discípulos de Cristo. E nós cristãos, temos  hoje a alegria de proclamar e dar testemunho da nossa fé, graças àquele primeiro anúncio e àqueles homens humildes e corajosos que responderam generosamente  à chamada de Jesus – disse o Papa, com este desejo:
A consciência deste início suscite em nós o desejo de levar a palavra, o amor, a ternura de Jesus a todos os contextos, mesmo nas mais impérvias e refractárias. Levar a palavra a todas as periferias. Todos os espaços da vida humana são terrenos onde deitar a semente do Evangelho, a fim de que dê frutos de salvação”.
E terminou pedindo a Nossa Senhora que nos ajude, com a sua materna intercessão, a responder, com alegria, à chamada de Jesus a pormo-nos ao serviço do Reino de Deus.

SEMANA DE ORAÇÃO PELA UNIDADE DOS CRISTÃOS 2017 (18 A 25 de JANEIRO)

O Papa Francisco assinalou na passada 4ª feira, no Vaticano, o início da semana de oração pela unidade dos cristãos, afirmando que este esforço ecuménico é um sinal de “esperança” para a Europa.
“Na Europa, esta fé comum em Cristo é como um fio de esperança: pertencemos uns aos outros. Comunhão, reconciliação e unidade são possíveis”, disse, na audiência pública semanal que decorreu na sala Paulo VI.
Na saudação aos peregrinos de língua portuguesa, Francisco sublinhou que estes dias de oração são um apelo à “comunhão de preces e de esperanças
“O movimento ecuménico vai frutificando, com a graça de Deus. Que o Pai do Céu continue a derramar as suas bênçãos sobre os passos de todos os seus filhos. Irmãs e irmãos muito amados, servi a causa da unidade e da paz”, concluiu.
A Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, que no hemisfério norte se celebra de 18 a 25 de janeiro, evoca em 2017 os 500 anos da reforma protestante, iniciada por Martinho Lutero.
O documento de reflexão preparado e publicado em conjunto pelo Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos (Santa Sé) e a Comissão Fé e Constituição (Conselho Mundial de Igrejas) tem como tema central a “reconciliação”.
O tema da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos de 2017 inspira-se numa passagem da segunda carta de São Paulo aos Coríntios: ‘Reconciliação: é o amor de Cristo que nos impele’.
A 31 de outubro de 2016, o Papa e o presidente da Federação Luterana Mundial (LWF, siga em inglês), assinaram na Suécia uma declaração comum, por ocasião da comemoração conjunta católico-luterana dos 500 anos da reforma protestante. Francisco recordou a “emoção” que esta viagem lhe provocou. "No espírito daquela comemoração comum da reforma, olhamos mais para o que nos une do que para aquilo que nos separa e continuamos juntos o caminho para aprofundar a nossa comunhão e dar-lhe uma forma cada vez mais visível", declarou.

domingo, 15 de janeiro de 2017

REFLEXÃO DO PAPA FRANCISCO SOBRE O EVANGELHO DO II DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO A)

Jo 1,29-34 No seu encontro com os fiéis na Praça São Pedro, neste domingo (15/01), o Papa explicou o sentido das palavras do Evangelho deste dia proferidas por João Batista: “Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”, nas margens do Rio Jordão.
Enquanto João batiza as pessoas, homens e mulheres de várias idades, ele afirma que o reino dos céus está próximo e que o Messias está para se manifestar. 
“Para isso, é preciso prepararmo-nos, convertermo-nos e agirmos corretamente”. O batismo é um sinal concreto de penitência. João sabe que o Consagrado está a chegar e o sinal para reconhecê-lo é que Nele repousará o Espírito Santo, que trará o verdadeiro batismo.
“Eis que naquele momento Jesus se apresenta nas margens do rio, no meio do povo, dos pecadores, como nós. É o seu primeiro ato público, a primeira coisa que faz quando deixa a sua casa de Nazaré: desce à Judeia, vai ao Jordão e faz-se batizar por João Batista. Naquele momento, sobre Jesus desce o Espírito Santo em forma de pomba e a voz do Pai o proclama Filho predileto”.
João fica desconcertado pelo fato de o Messias se ter manifestado de modo tão impensável, no meio dos pecadores. O Papa explicou que iluminado pelo Espírito, João entende que assim se realizava a justiça divina, o plano de salvação de Deus, que “como Cordeiro de Deus, toma para si os pecados do mundo”.
Esta cena, segundo o Pontífice, é decisiva para a nossa fé e para a missão da Igreja, que deve indicar Jesus às pessoas, como fazem os padres na missa, todos os dias, quando apresentam o pão e o vinho aos fiéis como o Corpo e o Sangue de Cristo:
 “Este gesto litúrgico representa toda a missão da Igreja, que não se anuncia si mesma, mas anuncia Cristo! Ai da Igreja quando se anuncia si mesma... perde a bússola, não sabe para onde ir. Ela não se leva a si mesma, mas leva Cristo, porque é Ele e somente Ele que salva o povo do pecado, o liberta e o guia rumo à terra da vida e da liberdade”.
Concluindo, o Papa rezou a oração mariana do Angelus e pediu a Maria, Mãe do Cordeiro de Deus, que nos ajude a crer Nele e a Segui-Lo. 

domingo, 8 de janeiro de 2017

REFLEXÃO DO PAPA FRANCISCO SOBRE O EVANGELHO DA SOLENIDADE DA EPIFANIA DO SENHOR (ANO A)

Mt 2,1-12 Hoje, antes da oração mariana do Angelus e, dirigindo aos milhares de peregrinos e fiéis presentes na Praça de S. Pedro, o Papa Francisco falou do significado da Epifania do Senhor, isto é, a manifestação de Jesus que brilha como luz para todos povos. Símbolo desta luz que brilha no mundo e quer iluminar a vida de cada um, disse o Papa, é a estrela que guiou os Magos até Belém.
Também na nossa vida existem várias estrelas, luzes que brilham e orientam, e cabe a nós escolher quais queremos seguir:
“Há luzes intermitentes, que vão e vêm, como as pequenas satisfações da vida: embora boas, não são suficientes, porque duram pouco e não deixam a paz que procuramos; estão depois as luzes deslumbrantes da ribalta, do dinheiro e do sucesso, que prometem tudo e agora: são sedutoras, mas com a sua força cegam e fazem passar dos sonhos de glória à escuridão mais espessa. Os Magos, ao invés, nos convidam a seguir uma luz estável e suave, que não se apaga, porque não é deste mundo: vem do céu e brilha no coração”.
Esta luz verdadeira é a luz do Senhor, ou melhor, é o Senhor – continuou Francisco. Esta luz é para todos e chama a cada um e podemos, assim, sentir como dirigido a nós o convite de hoje do profeta Isaías: "Levanta-te, reveste-te de luz".
Gostaria, com muito respeito, convidar a todos a não ter medo desta luz e a abrir-se ao Senhor. Sobretudo gostaria de dizer a quem perdeu a força de procurar, àqueles que, subjugados pela escuridão da vida, apagaram qualquer desejo: "Coragem, a luz de Jesus sabe vencer as trevas mais escuras”, disse ainda o Papa.
Como podemos encontrar esta luz divina? Seguindo o exemplo dos Magos, que o Evangelho descreve sempre em movimento, disse o Papa, ressaltando a vida cristã é um caminho contínuo, feito de esperança e de busca; um caminho que, como o dos Magos, continua mesmo quando a estrela desaparece de vista momentaneamente:
“Neste caminho existem também insídias que devem ser evitadas: as conversas superficiais e mundanas que tornam lento o passo; os caprichos paralisantes do egoísmo; os buracos do pessimismo, que armadilha a esperança. Estes obstáculos bloquearam os escribas, eles sabiam onde estava a luz, mas não se mexeram. O seu conhecimento foi em vão, pois não basta saber que Deus nasceu, se não se faz com Ele o Natal no coração.
Os Magos, pelo contrário, ao encontrar o Menino, "se prostraram e o adoraram". E depois lhe deram ouro, incenso e mirra, os seus bens mais preciosos. Nós também, como os Magos, ponhamo-nos a caminho, revistamo-nos de luz seguindo a estrela de Jesus, e adoremos o Senhor com tudo aquilo que somos.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

FESTA DA SAGRADA FAMÍLIA

No Domingo 1 de Janeiro de 2017 a Paróquia de S. Francisco Xavier esteve em Festa.
Celebrou-se a Festa da Sagrada Família,com procissão percorrendo algumas ruas do Bairro e seguindo-se a Eucaristia Solene ao ar livre. Depois foi o almoço partilhado.





domingo, 1 de janeiro de 2017

MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO PARA A CELEBRAÇÃO DO 50º DIA MUNDIAL DA PAZ (1/01/2017)

MENSAGEM DO SANTO PADRE
FRANCISCO

PARA A CELEBRAÇÃO DO
50º DIA MUNDIAL DA PAZ 
1° DE JANEIRO DE 2017
A não-violência: estilo de uma política para a paz

1. No início deste novo ano, formulo sinceros votos de paz aos povos e nações do mundo inteiro, aos chefes de Estado e de governo, bem como aos responsáveis das Comunidades Religiosas e das várias expressões da sociedade civil. Almejo paz a todo o homem, mulher, menino e menina, e rezo para que a imagem e semelhança de Deus em cada pessoa nos permitam reconhecer-nos mutuamente como dons sagrados com uma dignidade imensa. Sobretudo nas situações de conflito, respeitemos esta «dignidade mais profunda»[1] e façamos da não-violência ativa o nosso estilo de vida.

Esta é a Mensagem para o 50º Dia Mundial da Paz. Na primeira, o Beato Papa Paulo VI dirigiu-se a todos os povos – e não só aos católicos – com palavras inequívocas: «Finalmente resulta, de forma claríssima, que a paz é a única e verdadeira linha do progresso humano (não as tensões de nacionalismos ambiciosos, nem as conquistas violentas, nem as repressões geradoras duma falsa ordem civil)». Advertia contra o «perigo de crer que as controvérsias internacionais não se possam resolver pelas vias da razão, isto é, das negociações baseadas no direito, na justiça, na equidade, mas apenas pelas vias dissuasivas e devastadoras». Ao contrário, citando a Pacem in terris do seu antecessor São João XXIII, exaltava «o sentido e o amor da paz baseada na verdade, na justiça, na liberdade, no amor».[2] É impressionante a atualidade destas palavras, não menos importantes e prementes hoje do que há cinquenta anos.
Nesta ocasião, desejo deter-me na não-violência como estilo duma política de paz, e peço a Deus que nos ajude, a todos nós, a inspirar na não-violência as profundezas dos nossos sentimentos e valores pessoais. Sejam a caridade e a não-violência a guiar o modo como nos tratamos uns aos outros nas relações interpessoais, sociais e internacionais. Quando sabem resistir à tentação da vingança, as vítimas da violência podem ser os protagonistas mais credíveis de processos não-violentos de construção da paz. Desde o nível local e diário até ao nível da ordem mundial, possa a não-violência tornar-se o estilo caraterístico das nossas decisões, dos nossos relacionamentos, das nossas ações, da política em todas as suas formas.
Um mundo dilacerado
2. Enquanto o século passado foi arrasado por duas guerras mundiais devastadoras, conheceu a ameaça da guerra nuclear e um grande número de outros conflitos, hoje, infelizmente, encontramo-nos a braços com uma terrível guerra mundial aos pedaços. Não é fácil saber se o mundo de hoje seja mais ou menos violento que o de ontem, nem se os meios modernos de comunicação e a mobilidade que carateriza a nossa época nos tornem mais conscientes da violência ou mais rendidos a ela.
Seja como for, esta violência que se exerce «aos pedaços», de maneiras diferentes e a variados níveis, provoca enormes sofrimentos de que estamos bem cientes: guerras em diferentes países e continentes; terrorismo, criminalidade e ataques armados imprevisíveis; os abusos sofridos pelos migrantes e as vítimas de tráfico humano; a devastação ambiental. E para quê? Porventura a violência permite alcançar objetivos de valor duradouro? Tudo aquilo que obtém não é, antes, desencadear represálias e espirais de conflitos letais que beneficiam apenas a poucos «senhores da guerra»?
A violência não é o remédio para o nosso mundo dilacerado. Responder à violência com a violência leva, na melhor das hipóteses, a migrações forçadas e a atrozes sofrimentos, porque grandes quantidades de recursos são destinadas a fins militares e subtraídas às exigências do dia-a-dia dos jovens, das famílias em dificuldade, dos idosos, dos doentes, da grande maioria dos habitantes da terra. No pior dos casos, pode levar à morte física e espiritual de muitos, se não mesmo de todos.
A Boa Nova
3. O próprio Jesus viveu em tempos de violência. Ensinou que o verdadeiro campo de batalha, onde se defrontam a violência e a paz, é o coração humano: «Porque é do interior do coração dos homens que saem os maus pensamentos» (Marcos 7, 21). Mas, perante esta realidade, a resposta que oferece a mensagem de Cristo é radicalmente positiva: Ele pregou incansavelmente o amor incondicional de Deus, que acolhe e perdoa, e ensinou os seus discípulos a amar os inimigos (cf. Mateus 5, 44) e a oferecer a outra face (cf. Mateus 5, 39). Quando impediu, aqueles que acusavam a adúltera, de a lapidar (cf. João 8, 1-11) e na noite antes de morrer, quando disse a Pedro para repor a espada na bainha (cf. Mateus 26, 52), Jesus traçou o caminho da não-violência que Ele percorreu até ao fim, até à cruz, tendo assim estabelecido a paz e destruído a hostilidade (cf. Efésios 2, 14-16). Por isso, quem acolhe a Boa Nova de Jesus, sabe reconhecer a violência que carrega dentro de si e deixa-se curar pela misericórdia de Deus, tornando-se assim, por sua vez, instrumento de reconciliação, como exortava São Francisco de Assis: «A paz que anunciais com os lábios, conservai-a ainda mais abundante nos vossos corações».[3]
Hoje, ser verdadeiro discípulo de Jesus significa aderir também à sua proposta de não-violência. Esta, como afirmou o meu predecessor Bento XVI, «é realista pois considera que no mundo existe demasiada violência, demasiada injustiça e, portanto, não se pode superar esta situação, exceto se lhe contrapuser algo mais de amor, algo mais de bondade. Este “algo mais” vem de Deus».[4]E acrescentava sem hesitação: «a não-violência para os cristãos não é um mero comportamento tático, mas um modo de ser da pessoa, uma atitude de quem está tão convicto do amor de Deus e do seu poder que não tem medo de enfrentar o mal somente com as armas do amor e da verdade. O amor ao inimigo constitui o núcleo da “revolução cristã”».[5] A página evangélica – amai os vossos inimigos (cf. Lucas 6, 27) – é, justamente, considerada «a magna carta da não-violência cristã»: esta não consiste «em render-se ao mal (...), mas em responder ao mal com o bem (cf. Romanos 12, 17-21), quebrando dessa forma a corrente da injustiça».[6]
Mais poderosa que a violência
4. Por vezes, entende-se a não-violência como rendição, negligência e passividade, mas, na realidade, não é isso. Quando a Madre Teresa recebeu o Prémio Nobel da Paz em 1979, declarou claramente qual era a sua ideia de não-violência ativa: «Na nossa família, não temos necessidade de bombas e de armas, não precisamos de destruir para edificar a paz, mas apenas de estar juntos, de nos amarmos uns aos outros (...). E poderemos superar todo o mal que há no mundo».[7] Com efeito, a força das armas é enganadora. «Enquanto os traficantes de armas fazem o seu trabalho, há pobres pacificadores que, só para ajudar uma pessoa, outra e outra, dão a vida»; para estes obreiros da paz, a Madre Teresa é «um símbolo, um ícone dos nossos tempos».[8] No passado mês de setembro, tive a grande alegria de a proclamar Santa. Elogiei a sua disponibilidade para com todos «através do acolhimento e da defesa da vida humana, a dos nascituros e a dos abandonados e descartados. (...) Inclinou-se sobre as pessoas indefesas, deixadas moribundas à beira da estrada, reconhecendo a dignidade que Deus lhes dera; fez ouvir a sua voz aos poderosos da terra, para que reconhecessem a sua culpa diante dos crimes – diante dos crimes! – da pobreza criada por eles mesmos».[9] Como resposta, a sua missão – e nisto representa milhares, antes, milhões de pessoas – é ir ao encontro das vítimas com generosidade e dedicação, tocando e vendando cada corpo ferido, curando cada vida dilacerada.
A não-violência, praticada com decisão e coerência, produziu resultados impressionantes. Os sucessos alcançados por Mahatma Gandhi e Khan Abdul Ghaffar Khan, na libertação da Índia, e por Martin Luther King Jr contra a discriminação racial nunca serão esquecidos. As mulheres, em particular, são muitas vezes líderes de não-violência, como, por exemplo, Leymah Gbowee e milhares de mulheres liberianas, que organizaram encontros de oração e protesto não-violento (pray-ins), obtendo negociações de alto nível para a conclusão da segunda guerra civil na Libéria.
E não podemos esquecer também aquela década epocal que terminou com a queda dos regimes comunistas na Europa. As comunidades cristãs deram a sua contribuição através da oração insistente e a ação corajosa. Especial influência exerceu São João Paulo II, com o seu ministério e magistério. Refletindo sobre os acontecimentos de 1989, na Encíclica Centesimus annus(1991), o meu predecessor fazia ressaltar como uma mudança epocal na vida dos povos, nações e Estados se realizara «através de uma luta pacífica que lançou mão apenas das armas da verdade e da justiça».[10] Este percurso de transição política para a paz foi possível, em parte, «pelo empenho não-violento de homens que sempre se recusaram a ceder ao poder da força e, ao mesmo tempo, souberam encontrar aqui e ali formas eficazes para dar testemunho da verdade». E concluía: «Que os seres humanos aprendam a lutar pela justiça sem violência, renunciando tanto à luta de classes nas controvérsias internas, como à guerra nas internacionais».[11]
A Igreja comprometeu-se na implementação de estratégias não-violentas para promover a paz em muitos países solicitando, inclusive aos intervenientes mais violentos, esforços para construir uma paz justa e duradoura.
Este compromisso a favor das vítimas da injustiça e da violência não é um património exclusivo da Igreja Católica, mas pertence a muitas tradições religiosas, para quem «a compaixão e a não-violência são essenciais e indicam o caminho da vida».[12] Reitero-o aqui sem hesitação: «nenhuma religião é terrorista».[13] A violência é uma profanação do nome de Deus.[14] Nunca nos cansemos de repetir: «jamais o nome de Deus pode justificar a violência. Só a paz é santa. Só a paz é santa, não a guerra».[15]
A raiz doméstica duma política não-violenta
5. Se a origem donde brota a violência é o coração humano, então é fundamental começar por percorrer a senda da não-violência dentro da família. É uma componente daquela alegria do amor que apresentei na Exortação Apostólica Amoris laetitia, em março passado, concluindo dois anos de reflexão por parte da Igreja sobre o matrimónio e a família. Esta constitui o cadinho indispensável no qual cônjuges, pais e filhos, irmãos e irmãs aprendem a comunicar e a cuidar uns dos outros desinteressadamente e onde os atritos, ou mesmo os conflitos, devem ser superados, não pela força, mas com o diálogo, o respeito, a busca do bem do outro, a misericórdia e o perdão.[16] A partir da família, a alegria do amor propaga-se pelo mundo, irradiando para toda a sociedade.[17] Aliás, uma ética de fraternidade e coexistência pacífica entre as pessoas e entre os povos não se pode basear na lógica do medo, da violência e do fechamento, mas na responsabilidade, no respeito e no diálogo sincero. Neste sentido, lanço um apelo a favor do desarmamento, bem como da proibição e abolição das armas nucleares: a dissuasão nuclear e a ameaça duma segura destruição recíproca não podem fundamentar este tipo de ética.[18] Com igual urgência, suplico que cessem a violência doméstica e os abusos sobre mulheres e crianças.
O Jubileu da Misericórdia, que terminou em novembro passado, foi um convite a olhar para as profundezas do nosso coração e a deixar entrar nele a misericórdia de Deus. O ano jubilar fez-nos tomar consciência de como são numerosos e variados os indivíduos e os grupos sociais que são tratados com indiferença, que são vítimas de injustiça e sofrem violência. Fazem parte da nossa «família», são nossos irmãos e irmãs. Por isso, as políticas de não-violência devem começar dentro das paredes de casa para, depois, se difundir por toda a família humana. «O exemplo de Santa Teresa de Lisieux convida-nos a pôr em prática o pequeno caminho do amor, a não perder a oportunidade duma palavra gentil, dum sorriso, de qualquer pequeno gesto que semeie paz e amizade. Uma ecologia integral é feita também de simples gestos quotidianos, pelos quais quebramos a lógica da violência, da exploração, do egoísmo».[19]
O meu convite
6. A construção da paz por meio da não-violência ativa é um elemento necessário e coerente com os esforços contínuos da Igreja para limitar o uso da força através das normas morais, mediante a sua participação nos trabalhos das instituições internacionais e graças à competente contribuição de muitos cristãos para a elaboração da legislação a todos os níveis. O próprio Jesus nos oferece um «manual» desta estratégia de construção da paz no chamado Sermão da Montanha. As oito Bem-aventuranças (cf. Mateus 5, 3-10) traçam o perfil da pessoa que podemos definir feliz, boa e autêntica. Felizes os mansos – diz Jesus –, os misericordiosos, os pacificadores, os puros de coração, os que têm fome e sede de justiça.
Este é um programa e um desafio também para os líderes políticos e religiosos, para os responsáveis das instituições internacionais e os dirigentes das empresas e dos meios de comunicação social de todo o mundo: aplicar as Bem-aventuranças na forma como exercem as suas responsabilidades. É um desafio a construir a sociedade, a comunidade ou a empresa de que são responsáveis com o estilo dos obreiros da paz; a dar provas de misericórdia, recusando-se a descartar as pessoas, danificar o meio ambiente e querer vencer a todo o custo. Isto requer a disponibilidade para «suportar o conflito, resolvê-lo e transformá-lo no elo de ligação de um novo processo».[20] Agir desta forma significa escolher a solidariedade como estilo para fazer a história e construir a amizade social. A não-violência ativa é uma forma de mostrar que a unidade é, verdadeiramente, mais forte e fecunda do que o conflito. No mundo, tudo está intimamente ligado.[21] Claro, é possível que as diferenças gerem atritos: enfrentemo-los de forma construtiva e não-violenta, de modo que «as tensões e os opostos [possam] alcançar uma unidade multifacetada que gera nova vida», conservando «as preciosas potencialidades das polaridades em contraste».[22]
Asseguro que a Igreja Católica acompanhará toda a tentativa de construir a paz inclusive através da não-violência ativa e criativa. No dia 1 de janeiro de 2017, nasce o novo Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, que ajudará a Igreja a promover, de modo cada vez mais eficaz, «os bens incomensuráveis da justiça, da paz e da salvaguarda da criação» e da solicitude pelos migrantes, «os necessitados, os doentes e os excluídos, os marginalizados e as vítimas dos conflitos armados e das catástrofes naturais, os reclusos, os desempregados e as vítimas de toda e qualquer forma de escravidão e de tortura».[23] Toda a ação nesta linha, ainda que modesta, contribui para construir um mundo livre da violência, o primeiro passo para a justiça e a paz.
Em conclusão
7. Como é tradição, assino esta Mensagem no dia 8 de dezembro, festa da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria. Nossa Senhora é a Rainha da Paz. No nascimento do seu Filho, os anjos glorificavam a Deus e almejavam paz na terra aos homens e mulheres de boa vontade (cf. Lucas 2, 14). Peçamos à Virgem Maria que nos sirva de guia.
«Todos desejamos a paz; muitas pessoas a constroem todos os dias com pequenos gestos; muitos sofrem e suportam pacientemente a dificuldade de tantas tentativas para a construir».[24]No ano de 2017, comprometamo-nos, através da oração e da ação, a tornar-nos pessoas que baniram dos seus corações, palavras e gestos a violência, e a construir comunidades não-violentas, que cuidem da casa comum. «Nada é impossível, se nos dirigimos a Deus na oração. Todos podem ser artesãos de paz».[25]
Vaticano, 8 de dezembro de 2016.

Francisco