domingo, 24 de fevereiro de 2019

REFLEXÃO DO PAPA FRANCISCO SOBRE O EVANGELHO DO VII DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO C)


Lc 6, 27-38 Uma “revolução da misericórdia”, capaz de superar o instinto humano e a lei mundana da retaliação. Assim, "proclamamos ao mundo que é possível vencer o mal com o bem". Foi o que sugeriu o Papa na sua alocução que precedeu a Oração mariana do Angelus, neste VII domingo do Tempo Comum.
Dirigindo-se aos milhares de peregrinos presentes na Praça São Pedro num dia ensolarado e com baixas temperaturas, Francisco recordou que a ordem de Jesus “amar os vossos inimigos, fazer o bem a quem vos odeia e abençoar os que vos amaldiçoam” não é uma opção. E Jesus não ordena isto a todos, mas aos discípulos, “àqueles que o escutam”:
“Ele sabe muito bem que amar os inimigos ultrapassa as nossas possibilidades, mas para isso se fez homem: não para nos deixar assim como somos, mas para nos transformar em homens e mulheres capazes de um amor maior, aquele de seu e nosso Pai . Este é o amor que Jesus dá a quem o "escuta". E então isso se torna possível! Com Ele, graças ao seu amor, ao seu Espírito, nós podemos amar também aqueles que não nos amam, mesmo aqueles que nos fazem mal”. 
Deste modo – explica o Papa -  Jesus quer que em cada coração o amor de Deus triunfe sobre o ódio e o rancor.  Mas se a “lógica do amor, que culmina na cruz de Cristo, é o que caracteriza  o cristão e nos leva a ir de encontro a todos, com coração de irmãos (...), como é possível superar o instinto humano e a lei mundana da retaliação?”, questiona. 
A resposta, recorda Francisco, “é dada por Jesus na mesma página do Evangelho: "Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso": 
“Quem ouve Jesus, que se esforça em segui-lo, mesmo que isso tenha seu preço, torna-se filho de Deus e começa a se assemelhar realmente ao Pai que está nos Céus. Nos tornamos capazes de coisas que nunca teríamos pensado ser capazes dizer ou fazer, e das quais nos teríamos até mesmo envergonhado, mas que agora, pelo contrário, nos dão paz e alegria. Não temos mais necessidade de ser violentos, com as palavras e os gestos; nos descobrimos capazes de ternura e de bondade; e sentimos que tudo isso não vem de nós, mas d'Ele! E,  portanto, não nos vangloriamos disso, mas somos apenas agradecidos”. 
Não há nada maior e mais fecundo do que o amor – diz o Papa -, pois “ele confere à pessoa toda a sua dignidade, enquanto o ódio e a vingança a diminuem, deturpando a beleza da criatura feita à imagem de Deus”.
E ressalta, que  “esta ordem para responder ao insulto e ao erro com o amor, criou uma nova cultura no mundo: a "cultura da misericórdia - devemos aprendê-la bem, e praticá-la bem, esta cultura da misericórdia que dá vida a uma verdadeira revolução":
“É a revolução do amor, cujos protagonistas são os mártires de todos os tempos. E Jesus nos assegura que o nosso comportamento, marcado pelo amor para com aqueles que nos fazem mal, não será em vão. Ele diz: "Perdoai e sereis perdoados. Dai e vos será dado (...) porque, com a mesma medida com que medirdes os outros, vós também sereis medidos”.
A exemplo de Deus que sempre nos perdoa – recordou o Santo Padre -  também nós devemos perdoar sempre, pois “se não perdoarmos completamente, não podemos pretender ser perdoados completamente”, também.
Pelo contrário, “se os nossos corações se abrem à misericórdia, se o perdão é selado com um abraço fraterno e se estreitam os laços de comunhão, nós proclamamos ao mundo que é possível  vencer o mal com o bem”:
"Às vezes para nós é mais fácil recordar as ofensas, os males que nos fizeram e não as coisas boas. São os "colecionadores de injustiças": somente recordam as coisas ruins que fizeram. E este não é o caminho. Devemos fazer o contrário, diz Jesus. Recordar as coisas boas é quando alguém vem com uma fofoca, que fala mal do outro, e dizer: "Mas, sim, quem sabe, mas ele tem isto de bom". Inverter o discurso. Esta é a revolução da misericórdia".
“Que a Virgem Maria – foi seu pedido ao final - nos ajude a deixar-nos tocar o coração por esta palavra santa de Jesus, queimando como fogo, que nos transforma e nos torna capazes de fazer o bem sem recompensa, testemunhando em toda parte a vitória do amor”.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

REFLEXÃO DO PAPA FRANCISCO SOBRE O EVANGELHO DO VI DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO C)


O Papa Francisco, antes da Oração Mariana do Angelus deste domingo (17) de sol e ambiente primaveril, comenta o Evangelho das Bem-aventuranças na versão de São Lucas (Lc 7, 17.20-26). O Pontífice afirma que ter fé é confiar totalmente no Senhor, derrubando “ídolos mundanos”, e que a felicidade é estar com Deus, próximo dos pobres procurando não seguir os “profissionais da ilusão”.
O Pontífice começa explicando que o texto se articula “em quatro bem-aventuranças e quatro mandamentos formulados com a expressão ‘ai de vós’”. São palavras fortes e incisivas que Jesus usa para nos abrir os olhos. Francisco convida-nos, assim, “a refletir sobre o sentido profundo de ter fé, que consiste em confiarmos totalmente no Senhor”.
Deus está próximo dos “pobres, dos que têm fome, dos aflitos e perseguidos” para libertá-los das suas escravidões, diz o Papa, e dirige-se aos ricos, saciados, sorridentes e aclamados pelas pessoas com o “ai de vós” para “’despertá-los’ do engano perigoso do egoísmo”. 
“ Trata-se de derrubar os ídolos mundanos para abrir o coração ao Deus vivo e verdadeiro; só Ele pode dar à nossa existência aquela plenitude tão desejada e difícil de alcançar. ”
“São muitos, de fato, inclusive nos nossos dias, aqueles que se propõem como distribuidores de felicidade: vêm e prometem sucesso a curto prazo, grande retorno de fácil alcance, soluções mágicas para cada problema e assim por diante. E aqui é fácil escorregar, sem perceber, no pecado contra o primeiro mandamento, isto é, a idolatria, substituir Deus por um ídolo. Idolatria e ídolos parecem coisas de outros tempos, mas, na verdade, são de todos os tempos! Inclusive de hoje. Descrevem algumas posturas contemporâneas melhor que muitas análises sociológicas.”
Por isso Jesus abre-nos os olhos para a realidade, afirma o Papa. Somos felizes se estamos ao lado de Deus e “daquilo que não é efêmero, mas dura para a vida eterna”. Somos felizes se “estivermos próximos dos pobres, dos aflitos e de quem tem fome”, acrescenta o Pontífice, e “possuindo bens deste mundo”, mas conseguindo “compartilhar com os nossos irmãos”.
“As Bem-aventuranças de Jesus são uma mensagem decisiva que nos motiva a não recolocar a nossa crença nas coisas materiais e passageiras, a não procurar a felicidade seguindo os vendedores de fumaça que muitas vezes são vendedores de morte, profissionais da ilusão. Não, não devemos segui-los. Eles são incapazes de nos dar esperança. O Senhor ajuda-nos a abrir os olhos, a capturar um olhar mais penetrante sobre a realidade, a sarar da miopia crônica que o espírito mundano nos contamina.”
O Papa concluiu incentivando-nos a reconhecermos “aquilo que realmente nos enriquece, nos sacia, nos dá alegria e dignidade” e a tornarmo-nos, assim, “testemunhas da felicidade que não engana. A de Deus. Essa não decepciona nunca”.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA O XXVII DIA MUNDIAL DO DOENTE (11.02.2019)


MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO
27º Dia Mundial do Doente (11 de fevereiro de 2019)
Boletim da Santa Sé 
«Recebestes de graça, dai de graça» (Mt 10, 8)
Queridos irmãos e irmãs!
«Recebestes de graça, dai de graça» (Mt 10, 8): estas são palavras pronunciadas por Jesus, quando enviou os apóstolos a espalhar o Evangelho, para que, através de gestos de amor gratuito, se propagasse o seu Reino.
Por ocasião do XXVII Dia Mundial do Doente, que será celebrado de modo solene em Calcutá, na Índia, a 11 de fevereiro de 2019, a Igreja – Mãe de todos os seus filhos, mas com uma solicitude especial pelos doentes – lembra que o caminho mais credível de evangelização são gestos de dom gratuito como os do Bom Samaritano. O cuidado dos doentes precisa de profissionalismo e ternura, de gestos gratuitos, imediatos e simples, como uma carícia, pelos quais fazemos sentir ao outro que nos é «querido».
A vida é dom de Deus, pois – como adverte São Paulo – «que tens tu que não tenhas recebido?» (1 Cor 4, 7). E, precisamente porque é dom, a existência não pode ser considerada como mera possessão ou propriedade privada, sobretudo à vista das conquistas da medicina e da biotecnologia, que poderiam induzir o homem a ceder à tentação de manipular a «árvore da vida» (cf. Gn 3, 24).
Contra a cultura do descarte e da indiferença, cumpre-me afirmar que se há de colocar o dom como paradigma capaz de desafiar o individualismo e a fragmentação social dos nossos dias, para promover novos vínculos e várias formas de cooperação humana entre povos e culturas. Como pressuposto do dom, temos o diálogo, que abre espaços relacionais de crescimento e progresso humano capazes de romper os esquemas consolidados de exercício do poder na sociedade. O dar não se identifica com o ato de oferecer um presente, porque só se pode dizer tal se for um dar-se a si mesmo: não se pode reduzir a mera transferência duma propriedade ou dalgum objeto. Distingue-se de presentear, precisamente porque inclui o dom de si mesmo e supõe o desejo de estabelecer um vínculo. Assim, antes de mais nada, o dom é um reconhecimento recíproco, que constitui o caráter indispensável do vínculo social. No dom, há o reflexo do amor de Deus, que culmina na encarnação do Filho Jesus e na efusão do Espírito Santo.
Todo o homem é pobre, necessitado e indigente. Quando nascemos, para viver tivemos necessidade dos cuidados dos nossos pais; de forma semelhante, em cada fase e etapa da vida, cada um de nós nunca conseguirá, de todo, ver-se livre da necessidade e da ajuda alheia, nunca conseguirá arrancar de si mesmo o limite da impotência face a alguém ou a alguma coisa. Também esta é uma condição que carateriza o nosso ser de «criaturas». O reconhecimento leal desta verdade convida-nos a permanecer humildes e a praticar com coragem a solidariedade, como virtude indispensável à existência.
Esta consciência impele-nos a uma práxis responsável e responsabilizadora, tendo em vista um bem que é indivisivelmente pessoal e comum. Apenas quando o homem se concebe, não como um mundo fechado em si mesmo, mas como alguém que, por sua natureza, está ligado a todos os outros, originariamente sentidos como «irmãos», é possível uma práxis social solidária, orientada para o bem comum. Não devemos ter medo de nos reconhecermos necessitados e incapazes de nos darmos tudo aquilo de que teríamos necessidade, porque não conseguimos, sozinhos e apenas com as nossas forças, vencer todos os limites. Não temamos este reconhecimento, porque o próprio Deus, em Jesus, Se rebaixou (cf. Flp 2, 8), e rebaixa, até nós e até às nossas pobrezas para nos ajudar e dar aqueles bens que, sozinhos, nunca poderíamos ter.
Aproveitando a circunstância desta celebração solene na Índia, quero lembrar, com alegria e admiração, a figura da Santa Madre Teresa de Calcutá, um modelo de caridade que tornou visível o amor de Deus pelos pobres e os doentes. Como dizia na sua canonização, «Madre Teresa, ao longo de toda a sua existência, foi uma dispensadora generosa da misericórdia divina, fazendo-se disponível a todos, através do acolhimento e da defesa da vida humana, dos nascituros e daqueles abandonados e descartados. (…) Inclinou-se sobre as pessoas indefesas, deixadas moribundas à beira da estrada, reconhecendo a dignidade que Deus lhes dera; fez ouvir a sua voz aos poderosos da terra, para que reconhecessem a sua culpa diante dos crimes (…) da pobreza criada por eles mesmos. A misericórdia foi para ela o “sal”, que dava sabor a todas as suas obras, e a “luz” que iluminava a escuridão de todos aqueles que nem sequer tinham mais lágrimas para chorar pela sua pobreza e sofrimento. A sua missão nas periferias das cidades e nas periferias existenciais permanece nos nossos dias como um testemunho eloquente da proximidade de Deus junto dos mais pobres entre os pobres» (Homilia, 4/IX/2016).
A Santa Madre Teresa ajuda-nos a compreender que o único critério de ação deve ser o amor gratuito para com todos, sem distinção de língua, cultura, etnia ou religião. O seu exemplo continua a guiar-nos na abertura de horizontes de alegria e esperança para a humanidade necessitada de compreensão e ternura, especialmente para as pessoas que sofrem.
A gratuidade humana é o fermento da ação dos voluntários, que têm tanta importância no setor socio-sanitário e que vivem de modo eloquente a espiritualidade do Bom Samaritano. Agradeço e encorajo todas as associações de voluntariado que se ocupam do transporte e assistência dos doentes, aquelas que providenciam nas doações de sangue, tecidos e órgãos. Um campo especial onde a vossa presença expressa a solicitude da Igreja é o da tutela dos direitos dos doentes, sobretudo de quantos se veem afetados por patologias que exigem cuidados especiais, sem esquecer o campo da sensibilização e da prevenção. Revestem-se de importância fundamental os vossos serviços de voluntariado nas estruturas sanitárias e no domicílio, que vão da assistência sanitária ao apoio espiritual. Deles beneficiam tantas pessoas doentes, sós, idosas, com fragilidades psíquicas e motoras. Exorto-vos a continuar a ser sinal da presença da Igreja no mundo secularizado. O voluntário é um amigo desinteressado, a quem se pode confidenciar pensamentos e emoções; através da escuta, ele cria as condições para que o doente deixe de ser objeto passivo de cuidados para se tornar sujeito ativo e protagonista duma relação de reciprocidade, capaz de recuperar a esperança, mais disposto a aceitar as terapias. O voluntariado comunica valores, comportamentos e estilos de vida que, no centro, têm o fermento da doação. Deste modo realiza-se também a humanização dos tratamentos.
A dimensão da gratuidade deveria animar sobretudo as estruturas sanitárias católicas, porque é a lógica evangélica que qualifica a sua ação, quer nas zonas mais desenvolvidas quer nas mais carentes do mundo. As estruturas católicas são chamadas a expressar o sentido do dom, da gratuidade e da solidariedade, como resposta à lógica do lucro a todo o custo, do dar para receber, da exploração que não respeita as pessoas.
Exorto-vos a todos, nos vários níveis, a promover a cultura da gratuidade e do dom, indispensável para superar a cultura do lucro e do descarte. As instituições sanitárias católicas não deveriam cair no estilo empresarial, mas salvaguardar mais o cuidado da pessoa que o lucro. Sabemos que a saúde é relacional, depende da interação com os outros e precisa de confiança, amizade e solidariedade; é um bem que só se pode gozar «plenamente», se for partilhado. A alegria do dom gratuito é o indicador de saúde do cristão.
A todos vos confio a Maria, Salus infirmorum. Que Ela nos ajude a partilhar os dons recebidos com o espírito do diálogo e mútuo acolhimento, a viver como irmãos e irmãs cada um atento às necessidades dos outros, a saber dar com coração generoso, a aprender a alegria do serviço desinteressado. Com afeto, asseguro a todos a minha proximidade na oração e envio-vos de coração a Bênção Apostólica.
Vaticano, 25 de novembro de 2018
Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo
FRANCISCUS

REFLEXÃO DO PAPA FRANCISCO SOBRE O EVANGELHO DO V DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO C)


Lc 5,1-11 Na reflexão proposta aos milhares de peregrinos presentes na Praça São Pedro para o Angelus dominical deste V Domingo do tempo comum, o Papa enfatizou que a resposta de fé de Pedro ao lançar as redes, narrada no Evangelho de Lucas, é a mesma que “nós somos chamados a dar; é a atitude de disponibilidade que o Senhor pede a todos os seus discípulos, sobretudo àqueles que têm cargos de responsabilidade na Igreja”.  Uma “obediência confiante” que gera um resultado prodigioso.
 De fato, Pedro estava cansado e desiludido, pois não haviam pescado nada naquela noite, e é surpreendido pela atitude de Jesus que entra no barco, para assim poder falar à multidão que está nas margens do Mar da Galileia. Mas as palavras de Jesus “reabrem à confiança também o coração de Simão”. E com outro “movimento surpreendente”, Jesus diz-lhe: "Faz-te ao largo, e lançai as vossas redes para pescar". Inspirado pela presença de Jesus e iluminado pela sua Palavra, Pedro obedece.
É a resposta da fé, que também nós somos chamados a dar; é a atitude da disponibilidade que o Senhor pede a todos os seus discípulos, sobretudo àqueles que têm cargos de responsabilidade na Igreja. E a obediência confiante de Pedro gera um resultado prodigioso: ‘Assim o fizeram e apanharam uma grande quantidade de peixes’”.
“Trata-se  - explicou o Santo Padre - de uma pesca milagrosa, sinal do poder da palavra de Jesus.
Quando nos colocamos com generosidade ao seu serviço, Ele faz grandes coisas em nós. Assim age com cada um de nós, pede-nos para acolhê-lo no barco da nossa vida, para compartilhar com ele e navegar um novo mar que se revela cheio de surpresas. O seu convite para sairmos pelo mar aberto da humanidade do nosso tempo, para sermos testemunhas de bondade e de misericórdia, dá um novo sentido à nossa existência, que muitas vezes corre o risco de debruçar-se sobre si mesma”. 
Às vezes, observa o Papa, “podemos ficar surpresos e hesitantes diante do chamamento que nos dirige o Divino Mestre, e somos tentados a rejeitá-lo por causa da nossa incapacidade”. Mesmo Pedro, depois daquela “incrível pesca”, disse de joelhos diante d’Aquele que já reconhece como “Senhor”, esta “bela e humilde oração”: "Afasta-te de mim, pois sou um pecador".
“Mas a resposta de Jesus é de encorajamento: ‘Não temas; de agora em diante serás pescador de homens’, porque Deus, se confiamos nele, liberta-nos do nosso pecado e abre diante de nós um novo horizonte: colaborar na sua missão”:
O maior milagre realizado por Jesus, por Simão e pelos outros pescadores desiludidos e cansados, não é tanto a rede cheia de peixes, mas tê-los ajudado a não cair vítimas da desilusão e do desânimo diante das derrotas. Abriu-os para se tornarem anunciadores e testemunhas da sua palavra e do reino de Deus. E a resposta dos discípulos foi imediata e total: ‘E, atracando as barcas à terra, dei­xaram tudo e seguiram-no’." 
“Que a Virgem Santa, modelo de imediata adesão à vontade de Deus – disse o Papa ao concluir -  nos ajude a sentir o fascínio do chamamento do Senhor, e nos torne disponíveis para colaborar com ele para anunciar em todos os lugares a sua palavra de salvação”.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

A JMJ e o MAGIS na primeira pessoa - P. Pedro Rocha Mendes, sj

REFLEXÃO DO PAPA FRANCISCO SOBRE O EVANGELHO DO IV DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO C)


A liturgia deste IV domingo do Tempo Comum mostra a admiração dos concidadãos de Jesus ao verem que, um conterrâneo deles “o filho de José”, pretende ser o Cristo, o enviado do Pai.
Sendo um deles, disse Francisco, “eles consideram que deva mostrar esta sua estranha ‘pretensão’ fazendo milagres ali, em Nazaré, como fez nas cidades vizinhas”. “Mas Jesus não quer e não pode aceitar essa lógica, porque não corresponde ao plano de Deus: “Deus quer a fé, eles querem milagres, os sinais; Deus quer salvar todos, e eles querem um Messias em favor dos interesses deles. E para explicar a lógica de Deus, Jesus dá o exemplo de dois grandes profetas antigos: Elias e Eliseu, que Deus mandou curar e salvar pessoas não judias, de outros povos, mas que tinham confiado em sua palavra.”
Diante deste convite a abrir o coração deles à gratuidade e à universalidade da salvação, continuou o Pontífice, os cidadãos de Nazaré revoltam-se, e assumem mesmo uma atitude agressiva, que degenera a tal ponto que “se levantaram, o expulsaram da cidade e o conduziram até ao cimo da colina com a intenção de O precipitar de lá”. “A admiração do primeiro instante transformou-se numa agressão, numa rebelião contra Ele”, acrescentou o Papa.
O Santo Padre ressaltou que esta página do Evangelho (Lc 4,21-30) mostra-nos que “o ministério público de Jesus começa com uma rejeição e com uma ameaça de morte, paradoxalmente por parte de seus concidadãos”.
“Ao viver a missão a Ele confiada pelo Pai, Jesus sabe que deve enfrentar o cansaço, a rejeição, a perseguição e a derrota. Um preço que, ontem como hoje, a autêntica profecia é chamada a pagar.”
O Pontífice observou, ainda, que a rejeição não desencoraja Jesus, nem cessa o caminho e a fecundidade da sua ação profética. “Ele segue adiante no seu caminho, confiando no amor do Pai”, destacou.
“Também hoje, o mundo precisa ver profetas nos discípulos do Senhor, isto é, pessoas corajosas e perseverantes a responder à sua vocação cristã. Pessoas que seguem o ‘impulso’ do Espírito Santo, que as envia a anunciar esperança e salvação aos pobres e aos excluídos; pessoas que seguem a lógica da fé e não dos milagres; pessoas dedicadas ao serviço de todos, sem privilégios e exclusões. Em poucas palavras: pessoas que se abrem a acolher em si mesmas a vontade do Pai e se comprometem a testemunhá-la fielmente aos outros.”

domingo, 27 de janeiro de 2019

REFLEXÃO DO PAPA FRANCISCO SOBRE O EVANGELHO DO III DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO C)


Imaginemos que entramos também nós na sinagoga de Nazaré, a aldeia onde Jesus cresceu até cerca de trinta anos Ele levanta-se para ler a Sagrada Escritura. Em seguida, após um momento de silêncio cheio de expectativa por parte de todos, diz, entre a estupefacção geral: «Hoje se cumpriu esta palavra que acabais de ouvir» Evangelizar os pobres: esta é a missão de Jesus, segundo Ele diz; esta é inclusive a missão da Igreja, e de cada baptizado na Igreja. Ser cristão e ser missionário é a mesma coisa. Observa-se aqui que Jesus dirige a Boa Nova a todos, sem excluir ninguém, aliás privilegiando os mais distantes, os sofredores, os doentes, os marginalizados da sociedade. Questionamo-nos: o que significa evangelizar os pobres? Significa em primeiro lugar aproximarmo-nos deles, significa ter a alegria de os servir, de os libertar da opressão, e tudo isto em nome e com o Espírito de Cristo, porque é Ele o Evangelho de Deus, é Ele a Misericórdia de Deus, é Ele a libertação de Deus, é Ele quem se fez pobre para nos enriquecer com a sua pobreza. (Angelus, 24 janeiro 2016)

domingo, 20 de janeiro de 2019

REFLEXÃO DO PAPA FRANCISCO SOBRE O EVANGELHO DO II DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO C)

Jo. 2, 1-11 O Evangelho deste II Domingo do tempo comum, narra o primeiro milagre de Jesus, o seu primeiro ‘sinal’ – como diz o Evangelista João – que ocorreu nas bodas de Caná, na Galileia. E não foi por acaso que se realizou num matrimônio - explicou o Papa - porque naquela cerimônia, Deus casou-se com a humanidade: esta é a Boa Notícia, embora aqueles que o convidaram ainda não soubessem que o Filho de Deus estava sentado à sua mesa e que o verdadeiro esposo era Ele.
“De fato, todo o mistério do sinal de Caná baseia-se na presença deste divino esposo que começa a revelar-se. Jesus manifesta-se como esposo do povo de Deus, anunciado pelos profetas, e revela-nos a profundidade da relação que nos une a Ele"
O Papa prosseguiu com o relato da festa, que justamente quando estava no auge, o vinho acabou! Percebendo, Maria disse ao Filho: “Eles não têm vinho”. A água é necessária para viver, mas o vinho exprime a abundância do banquete e a alegria da festa. Como é possível celebrar as núpcias e fazer festa se falta aquilo que os profetas indicavam como um elemento típico do banquete messiânico?
Jesus então disse aos serventes: "Enchei as ânforas de água. E eles encheram-nos até a borda. Disse-lhes novamente: "Agora tomai algumas e levai-as àquele que dirige o banquete”. Maria dirige-se aos empregados e as suas palavras coroam o quadro esponsal de Caná: “Façam o que Ele vos disser”.
Maria – recordou o Papa – repete-nos hoje a mesma coisa: "Tudo o que Ele vos disser, façam-no". As suas palavras são um legado precioso que a nossa Mãe nos deixou.
 “Servir o Senhor significa escutar e pôr em prática a sua palavra. É a recomendação simples e essencial da Mãe de Jesus, é o programa de vida do cristão. Para cada um de nós, beber daquela ânfora equivale a entregar-se à Palavra e aos Sacramentos para experimentar a graça de Deus na nossa vida”.
Terminando, o Papa improvisou algumas palavras, destacando uma experiência que certamente muitos já tiveram na vida: “Quando estamos em situações difíceis, quando surgem problemas que não sabemos como resolver, quando muitas vezes sentimos ansiedade e angústia, quando nos falta alegria, vamos a Maria e digamos: "Não temos vinho. O vinho acabou: olha como eu estou; olha para o meu coração, olha para a minha alma". Digam-no à mãe. E ela irá a Jesus e dirá: "Olha ele, olha ela: eles não têm vinho". Depois, ela virá até nós e dirá: "Tudo o que ele te disser, fá-lo".

domingo, 13 de janeiro de 2019

REFLEXÃO DO PAPA FRANCISCO SOBRE O EVANGELHO DA SOLENIDADE DO BAPTISMO DO SENHOR (ANO C)


Lc 3,15-16.21-22 No Angelus da Festa do Batismo do Senhor, que hoje celebramos, o Papa Francisco pediu para não esquecermos a data do nosso Batismo: “Que seja uma data guardada no nosso coração para a podermos festejar todos os anos”, e convidou a invocarmos “com mais frequência o Espírito Santo”, “para poder viver com amor as coisas ordinárias, e assim, torná-las extraordinárias”.
Na sua alocução, o Papa destacou que “a liturgia chama-nos a conhecer mais plenamente Jesus” e por isso o Evangelho do dia, “ilustra dois elementos importantes: a relação de Jesus com as pessoas e a relação de Jesus com o Pai”. 
Dirigindo-se aos milhares de peregrinos presentes na Praça São Pedro, o Pontífice chamou a atenção para o fato de todo o povo que estava presente na cena do Batismo “não ser apenas um pano de fundo”,  mas “um componente essencial do evento. Antes de mergulhar na água, Jesus "mergulha" na multidão, une-se a ela assumindo plenamente a condição humana, compartilhando tudo, exceto o pecado”.
“Na sua santidade divina, cheia de graça e de misericórdia, disse o Papa, o Filho de Deus fez-se carne justamente para tomar sobre si e tirar o pecado do mundo. Assumiu as nossas misérias, a nossa condição humana”. Deixando-se batizar por João, Jesus “manifesta a lógica e o sentido da sua missão”: “Unindo-se ao povo - que pede a João o Batismo da conversão - Jesus compartilha com ele o profundo desejo da renovação interior. E o Espírito Santo que desce sobre Ele "em forma corpórea, como uma pomba",  é o sinal de que com Jesus se inicia um mundo novo, uma "nova criação", da qual fazem parte todos aqueles que acolhem Cristo na sua vida”.
O “amor do Pai, que todos recebemos no dia do nosso Batismo, é uma chama que foi acesa no nosso coração, e requer ser alimentada mediante a oração e a caridade”.
O segundo elemento destacado por Francisco, é a comunhão de Jesus com o Pai, e explica que “o Batismo é o  início da vida pública de Jesus, da sua missão no mundo como enviado do Pai para manifestar a sua bondade e o seu amor pelos homens”: “Tal missão é realizada em constante e perfeita união com o Pai e o Espírito Santo. Também a missão da Igreja e a de cada um de nós, para ser fiel e frutuosa, é chamada a inserir-se na de Jesus. Trata-se de regenerar continuamente na oração a evangelização e o apostolado, para dar um claro testemunho cristão, não segundo os nossos projetos humanos, mas segundo o estilo de Deus”.
A Festa do Batismo do Senhor – recorda o Papa – “é uma ocasião propícia para renovar com gratidão e convicção as promessas do nosso Batismo, comprometendo-nos a viver diariamente em coerência com ele”. E reitera a importância de conhecermos a data de nosso Batismo, guardá-la no coração e festejá-la todos os anos.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA O 52º DIA MUNDIAL DA PAZ (1.01.2019)



MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA O 52º DIA MUNDIAL DA PAZ 
(1º DE JANEIRO DE 2019)
Boletim da Santa Sé 
A boa política está ao serviço da paz
1. «A paz esteja nesta casa!»
Jesus, ao enviar em missão os seus discípulos, disse-lhes: «Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: “A paz esteja nesta casa!” E, se lá houver um homem de paz, sobre ele repousará a vossa paz; se não, voltará para vós» (Lc 10, 5-6).
Oferecer a paz está no coração da missão dos discípulos de Cristo. E esta oferta é feita a todos os homens e mulheres que, no meio dos dramas e violências da história humana, esperam na paz.[1] A «casa», de que fala Jesus, é cada família, cada comunidade, cada país, cada continente, na sua singularidade e história; antes de mais nada, é cada pessoa, sem distinção nem discriminação alguma. E é também a nossa «casa comum»: o planeta onde Deus nos colocou a morar e do qual somos chamados a cuidar com solicitude.
Eis, pois, os meus votos no início do novo ano: «A paz esteja nesta casa!»
2. O desafio da boa política
A paz parece-se com a esperança de que fala o poeta Carlos Péguy;[2] é como uma flor frágil, que procura desabrochar por entre as pedras da violência. Como sabemos, a busca do poder a todo o custo leva a abusos e injustiças. A política é um meio fundamental para construir a cidadania e as obras do homem, mas, quando aqueles que a exercem não a vivem como serviço à coletividade humana, pode tornar-se instrumento de opressão, marginalização e até destruição.
«Se alguém quiser ser o primeiro – diz Jesus – há de ser o último de todos e o servo de todos» (Mc 9, 35). Como assinalava o Papa São Paulo VI, «tomar a sério a política, nos seus diversos níveis – local, regional, nacional e mundial – é afirmar o dever do homem, de todos os homens, de reconhecerem a realidade concreta e o valor da liberdade de escolha que lhes é proporcionada, para procurarem realizar juntos o bem da cidade, da nação e da humanidade».[3]
Com efeito, a função e a responsabilidade política constituem um desafio permanente para todos aqueles que recebem o mandato de servir o seu país, proteger as pessoas que habitam nele e trabalhar para criar as condições dum futuro digno e justo. Se for implementada no respeito fundamental pela vida, a liberdade e a dignidade das pessoas, a política pode tornar-se verdadeiramente uma forma eminente de caridade.
3. Caridade e virtudes humanas para uma política ao serviço dos direitos humanos e da paz
O Papa Bento XVI recordava que «todo o cristão é chamado a esta caridade, conforme a sua vocação e segundo as possibilidades que tem de incidência na pólis. (…) Quando o empenho pelo bem comum é animado pela caridade, tem uma valência superior à do empenho simplesmente secular e político. (…) A ação do homem sobre a terra, quando é inspirada e sustentada pela caridade, contribui para a edificação daquela cidade universal de Deus que é a meta para onde caminha a história da família humana».[4] Trata-se de um programa no qual se podem reconhecer todos os políticos, de qualquer afiliação cultural ou religiosa, que desejam trabalhar juntos para o bem da família humana, praticando as virtudes humanas que subjazem a uma boa ação política: a justiça, a equidade, o respeito mútuo, a sinceridade, a honestidade, a fidelidade.
A propósito, vale a pena recordar as «bem-aventuranças do político», propostas por uma testemunha fiel do Evangelho, o Cardeal vietnamita Francisco Xavier Nguyen Van Thuan, falecido em 2002:
Bem-aventurado o político que tem uma alta noção e uma profunda consciência do seu papel.
Bem-aventurado o político de cuja pessoa irradia a credibilidade.
Bem-aventurado o político que trabalha para o bem comum e não para os próprios interesses.
Bem-aventurado o político que permanece fielmente coerente.
Bem-aventurado o político que realiza a unidade.
Bem-aventurado o político que está comprometido na realização duma mudança radical.
Bem-aventurado o político que sabe escutar.
Bem-aventurado o político que não tem medo.[5]
Cada renovação nos cargos eletivos, cada período eleitoral, cada etapa da vida pública constitui uma oportunidade para voltar à fonte e às referências que inspiram a justiça e o direito. Duma coisa temos a certeza: a boa política está ao serviço da paz; respeita e promove os direitos humanos fundamentais, que são igualmente deveres recíprocos, para que se teça um vínculo de confiança e gratidão entre as gerações do presente e as futuras.
4. Os vícios da política
A par das virtudes, não faltam infelizmente os vícios, mesmo na política, devidos quer à inépcia pessoal quer às distorções no meio ambiente e nas instituições. Para todos, está claro que os vícios da vida política tiram credibilidade aos sistemas dentro dos quais ela se realiza, bem como à autoridade, às decisões e à ação das pessoas que se lhe dedicam. Estes vícios, que enfraquecem o ideal duma vida democrática autêntica, são a vergonha da vida pública e colocam em perigo a paz social: a corrupção – nas suas múltiplas formas de apropriação indevida dos bens públicos ou de instrumentalização das pessoas –, a negação do direito, a falta de respeito pelas regras comunitárias, o enriquecimento ilegal, a justificação do poder pela força ou com o pretexto arbitrário da «razão de Estado», a tendência a perpetuar-se no poder, a xenofobia e o racismo, a recusa a cuidar da Terra, a exploração ilimitada dos recursos naturais em razão do lucro imediato, o desprezo daqueles que foram forçados ao exílio.
5. A boa política promove a participação dos jovens e a confiança no outro
Quando o exercício do poder político visa apenas salvaguardar os interesses de certos indivíduos privilegiados, o futuro fica comprometido e os jovens podem ser tentados pela desconfiança, por se verem condenados a permanecer à margem da sociedade, sem possibilidades de participar num projeto para o futuro. Pelo contrário, quando a política se traduz, concretamente, no encorajamento dos talentos juvenis e das vocações que requerem a sua realização, a paz propaga-se nas consciências e nos rostos. Torna-se uma confiança dinâmica, que significa «fio-me de ti e creio contigo» na possibilidade de trabalharmos juntos pelo bem comum. Por isso, a política é a favor da paz, se se expressa no reconhecimento dos carismas e capacidades de cada pessoa. «Que há de mais belo que uma mão estendida? Esta foi querida por Deus para dar e receber. Deus não a quis para matar (cf. Gn 4, 1-16) ou fazer sofrer, mas para cuidar e ajudar a viver. Juntamente com o coração e a inteligência, pode, também a mão, tornar-se um instrumento de diálogo».[6]
Cada um pode contribuir com a própria pedra para a construção da casa comum. A vida política autêntica, que se funda no direito e num diálogo leal entre os sujeitos, renova-se com a convicção de que cada mulher, cada homem e cada geração encerram em si uma promessa que pode irradiar novas energias relacionais, intelectuais, culturais e espirituais. Uma tal confiança nunca é fácil de viver, porque as relações humanas são complexas. Nestes tempos, em particular, vivemos num clima de desconfiança que está enraizada no medo do outro ou do forasteiro, na ansiedade pela perda das próprias vantagens, e manifesta-se também, infelizmente, a nível político mediante atitudes de fechamento ou nacionalismos que colocam em questão aquela fraternidade de que o nosso mundo globalizado tanto precisa. Hoje, mais do que nunca, as nossas sociedades necessitam de «artesãos da paz» que possam ser autênticos mensageiros e testemunhas de Deus Pai, que quer o bem e a felicidade da família humana.
6. Não à guerra nem à estratégia do medo
Cem anos depois do fim da I Guerra Mundial, ao recordarmos os jovens mortos durante aqueles combates e as populações civis dilaceradas, experimentamos – hoje, ainda mais que ontem – a terrível lição das guerras fratricidas, isto é, que a paz não pode jamais reduzir-se ao mero equilíbrio das forças e do medo. Manter o outro sob ameaça significa reduzi-lo ao estado de objeto e negar a sua dignidade. Por esta razão, reiteramos que a escalada em termos de intimidação, bem como a proliferação descontrolada das armas são contrárias à moral e à busca duma verdadeira concórdia. O terror exercido sobre as pessoas mais vulneráveis contribui para o exílio de populações inteiras à procura duma terra de paz. Não são sustentáveis os discursos políticos que tendem a acusar os migrantes de todos os males e a privar os pobres da esperança. Ao contrário, deve-se reafirmar que a paz se baseia no respeito por toda a pessoa, independentemente da sua história, no respeito pelo direito e o bem comum, pela criação que nos foi confiada e pela riqueza moral transmitida pelas gerações passadas.
O nosso pensamento detém-se, ainda e de modo particular, nas crianças que vivem nas zonas atuais de conflito e em todos aqueles que se esforçam por que a sua vida e os seus direitos sejam protegidos. No mundo, uma em cada seis crianças sofre com a violência da guerra ou pelas suas consequências, quando não é requisitada para se tornar, ela própria, soldado ou refém dos grupos armados. O testemunho daqueles que trabalham para defender a dignidade e o respeito das crianças é extremamente precioso para o futuro da humanidade.
7. Um grande projeto de paz
Celebra-se, nestes dias, o septuagésimo aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada após a II Guerra Mundial. A este respeito, recordemos a observação do Papa São João XXIII: «Quando numa pessoa surge a consciência dos próprios direitos, nela nascerá forçosamente a consciência do dever: no titular de direitos, o dever de reclamar esses direitos, como expressão da sua dignidade; nos demais, o dever de reconhecer e respeitar tais direitos».[7]
Com efeito, a paz é fruto dum grande projeto político, que se baseia na responsabilidade mútua e na interdependência dos seres humanos. Mas é também um desafio que requer ser abraçado dia após dia. A paz é uma conversão do coração e da alma, sendo fácil reconhecer três dimensões indissociáveis desta paz interior e comunitária:
– a paz consigo mesmo, rejeitando a intransigência, a ira e a impaciência e – como aconselhava São Francisco de Sales – cultivando «um pouco de doçura para consigo mesmo», a fim de oferecer «um pouco de doçura aos outros»;
– a paz com o outro: o familiar, o amigo, o estrangeiro, o pobre, o atribulado…, tendo a ousadia do encontro, para ouvir a mensagem que traz consigo;
– a paz com a criação, descobrindo a grandeza do dom de Deus e a parte de responsabilidade que compete a cada um de nós, como habitante deste mundo, cidadão e ator do futuro.
A política da paz, que conhece bem as fragilidades humanas e delas se ocupa, pode sempre inspirar-se ao espírito do Magnificat que Maria, Mãe de Cristo Salvador e Rainha da Paz, canta em nome de todos os homens: A «misericórdia [do Todo-Poderoso] estende-se de geração em geração sobre aqueles que O temem. Manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes (…), lembrado da sua misericórdia, como tinha prometido a nossos pais, a Abraão e à sua descendência, para sempre» (Lc 1, 50-55).
Vaticano, 8 de dezembro de 2018.
FRANCISCUS

domingo, 30 de dezembro de 2018

FESTA DA SAGRADA FAMILIA

 No domingo 30 de dezembro de 2018, realizou-se a Festa da Sagrada Família organizada por uma comissão que reuniu várias vezes para tudo preparar.

 Pelas 10h saíu a Procissão com o andor da Sagrada Família, levado aos ombros por homens e mulheres que percorreram algumas ruas da Paróquia de S. Francisco Xavier de Caparica


 Ao longo do caminho rezou-se e cantou-se, e o Pároco, Padre João de Brito,sj orientou a recitação do Terço meditando os mistérios e pedindo graças para todas as famílias
A procissão foi aumentando ao longo do percurso, até voltar à Quinta de S. Francisco de Borja.

Ás 11h30 ao ar livre começou a Eucarística da Festa da Sagrada Família presidida pelo Pároco
 Padre João de Brito, e pelos Padres da Comunidade de Jesuítas, Padre Dario Pedroso, Padre Gonçalo Machado e Padre José Pires.

Na homilia,o Pároco exortou as famílias a viverem no amor como a família de Nazaré, Maria, José e Jesus.
Houve um ofertório solene com canticos e danças
          Depois no pátio foi o almoço convívio com muita animação e pratos típicos e variados
                                                  O palco foi a alegria das crianças
 À tarde não faltou o grande bolo dedicado à Sagrada Família e o espumante para brindar
                     e cantar os parabéns por mais um aniversário da Festa da Sagrada Família.

QUE A SAGRADA FAMÍLIA DE NAZARÉ ABENÇOE E PROTEJA TODAS AS FAMÍLIAS!


REFLEXÃO DO PAPA FRANCISCO SOBRE O EVANGELHO DA FESTA DA SAGRADA FAMÍLIA DE JESUS MARIA E JOSÉ


Lc 2,41-52 Hoje, no último Angelus de 2018, o Papa Francisco dedicou sua reflexão à Sagrada Família, festejada pela Igreja neste domingo.
Mas o Papa recordou também as famílias com problemas, convidando-nos a aprendermos a maravilharmo-nos com as coisas boas que os outros têm, especialmente com quem nos é mais difícil.
Dirigindo-se aos milhares de peregrinos presentes na Praça São Pedro, o Pontífice chamou a atenção para dois elementos presentes na narrativa de São Lucas: estupor e angústia.
De fato, a família de Nazaré foi à Jerusalém para a Festa da Páscoa, mas na viagem de retorno, Maria e José percebem que o filho de doze anos não está na caravana, e depois “de três dias de busca e de medo, encontram-no no templo, sentado entre os doutores, decidido a discutir com eles”. Maria e José ficam "admirados" com a cena e Maria diz a Jesus que José e ela ficaram angustiados à sua procura.
Nunca faltou o estupor na família de Nazaré – explicou o Papa – que é “a capacidade de se maravilhar diante da gradual manifestação do Filho de Deus”. Também os doutores no templo ficaram admirados "com a sua inteligência e as suas respostas".
Maravilhar-se – observou Francisco - é o oposto de tomar tudo como certo, de interpretar a realidade que nos rodeia e os acontecimentos da história somente segundo os nossos critérios:
“Maravilhar-se é abrir-se aos outros, compreender as razões dos outros: essa atitude é importante para curar relacionamentos comprometidos entre as pessoas e é também indispensável para curar feridas abertas no âmbito familiar”. 
O Papa recordou então, que quando existem problemas nas famílias, nós sempre achamos que temos razão e fechamos as portas aos outros, mas deveríamos, pelo contrário, pensar o que é que a outra pessoa tem de bom e se maravilhar por este "bom". E explicou: "Isto ajuda a unidade da família. Se vocês têm problemas na família, pensem nas coisas boas que tem a pessoa da família com a qual vocês têm problemas, e se maravilhem com isto. E isto ajudará a curar as feridas familiares".
O Papa fala então da angústia que José e Maria sentiram com a perda do filho, o que “manifesta a centralidade de Jesus na Sagrada Família”:
A Virgem e seu esposo haviam acolhido aquele Filho, protegiam-no e viam-no a crescer em idade, sabedoria e graça no meio deles, mas acima de tudo ele crescia dentro de seus corações; e, pouco a pouco, aumentava o seu afeto e a sua compreensão em relação a ele”.
“Eis porque a família de Nazaré é santa: por estar centrada em Jesus - todas as atenções e solicitudes de Maria e José eram dirigidas a ele ”
Esta mesma angústia de Maria e José, disse Francisco, deveria ser experimentada também por nós, “quando estamos distantes dele”: “Deveríamos ficar angustiados quando por mais de três dias nos esquecemos de Jesus, sem rezar, sem ler o Evangelho, sem sentir a necessidade de sua presença e de sua amizade consoladora”. E tantas vezes passam os dias sem que eu me recorde de Jesus. Isso é feio, é muito feio. Deveríamos nos angustiar quando estas coisas acontecem." 
Assim como Maria e José o encontraram no templo ensinando - ressaltou o santo Padre -  também nós “podemos encontrar o divino Mestre e acolher a sua mensagem de salvação”, na Casa de Deus: “Na celebração eucarística, fazemos experiência viva de Cristo; Ele nos fala, nos oferece a sua Palavra, nos ilumina, nos ilumina o nosso caminho, nos dá o seu corpo na Eucaristia, da qual tiramos força para enfrentar as dificuldades de todos os dias”. 
Ao concluir, o Santo Padre convidou todos a rezar “por todas as famílias do mundo, especialmente por aquelas em que, por várias razões, há falta de paz e harmonia confiando-as à proteção da Sagrada Família de Nazaré”.